Cléa Sá

O Projeto Rosie

Caros companheiros de leitura

A nossa reunião para discutir O Projeto Rosie foi boa como costumam ser as nossas reuniões. Estávamos Andrés, Carmen, Cléa, Flávio, Inês, Josenita, Regina, Roberto, Tadeu, Vilmar e Zita. Sentimos falta dos colegas que não puderam vir. E bebericando nosso vinhosinho do Porto, nos deleitando com coisas gostosas e falando de assuntos variados nos preparamos para chegar ao ponto e entrar na cabeça de Don Tilman com seus organogramas, questionários, conceitos, técnicas e cálculos para a conquista de uma esposa.

E valeu a viagem. O projeto Rosie é um livro divertido, nos faz rir (alguém não achou a menor graça) e pensar ao mesmo tempo. As dificuldades nos relacionamentos se já difíceis normalmente tornam-se um tormento para quem sofre da síndrome de Asperger, que é o caso do nosso jovem herói embora ele nem se dê conta disso.

Mas ao mesmo tempo em que nos divertíamos com suas experiências e suas divertidas aventuras, a nossa conversa alçou voos mais altos e falamos sobre a diversidade entre os indivíduos, as categorizações, os enquadramentos, a separação e por ai afora. Síndrome de Asperger? Como caracterizá-la? Inteligência? Neurônios? Lado direito e esquerdo do cérebro? Conversa cientifica, gente. Para nossa surpresa, Einstein, gênio que era não sabia matemática. Seu cérebro foi dissecado, contados os neurônios e disso coisas foram concluídas para a ciência, mas não sei dizer quais. Socorra-me, Vilmar! Muito já se sabe sobre a mente, a inteligência, mas corremos o perigo de com tanto saber cairmos fácil em separar mais os indivíduos do que em entendê-los. As crianças hoje desde muito cedo são estudadas e certos comportamentos infantis, a agitação, a inquietação, a curiosidade, o falar, o perguntar, logo são vistos como hiperatividade e medicalizados. Oliver Sacks, neurologista, tem estudos sérios sobre autismo, sobre savantismo, distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência, e é ele que conta a história de uma autista que se considerava no meio das pessoas como “um antropólogo em Marte”. Tem um filme muito bom sobre essa história, Temple Grandim.

Enfim, falamos sobre a diversidade e a aceitação, temas que sempre nos são caros. E vemos que cada um de nós é um ser especial com um pouquinho de tudo, autismo inclusive, e que cada vez mais é preciso aceitar as diferenças. Falou-se ainda da inclusão das crianças com algum ripo de síndrome nas escolas, da resistência das APAES, e como não podia ser deixado de lado entramos no inconsciente. Pena que o tempo foi curto para o tanto que tínhamos a discutir.

Antes do inicio da discussão, li sem com consultar a autora um lindo texto de Josenita A vida e a alegria. Ele me fez muito bem e quis partilhar com os colegas. Sei que a autora me perdoou a inconfidência, e pelo que tenho lido vai enviar cópias para todos.
E antes de passar à nossa mesa mágica de café que sempre cabe todo mundo, uma pergunta sobre o que é melhor: o livro que lemos, o debate sobre o livro e suas muitas derivações ou o nosso encontro pessoal?

Das leituras:

Andrés – Da palavra ao gesto do analista, Jorge Forbes, Ensaio sobre arte, Mário Pedrosa, Poesia de Drummond;
Carmen – Sagarana, Guimarães Rosa, Viver para contar, Garcia Marques;
Cléa – O caminho de Swan e Á sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, Zero, Humberto Eco, A lanterna mágica, Ingmar Bergman;
Flávio – Luiz Carlos Prestes, Daniel Aarão Reis, Biografia de Mário de Andrade, Brasil, uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starl, Baú de ossos, Pedro Nava;
Inês – Norwegian Wood, Harumi Murakami;
Josenita – A desumanização, Valter Hugo Mãe, Amar é crime, Marcelino Ferreira;
Regina – A casa das orquídeas, Lucinda Riley, Meu irmão alemão, Chico Buarque;
Roberto – Zero, Humberto Eco;
Tadeu – Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr, Zero, Humberto Eco, A garota no trem, Paula Hawkins;
Vilmar – A segunda opinião, Michael Palmer;  A paixão em flor, Sheila Roberts; Forte do paraíso – Willian Kent e A arte de correr na chuva – Garth Stein;
Zita – Poesia de Fernando Pessoa, Poesia de Pablo Neruda, Amor, Isabel Allende.
Passamos a escolher o livro para o próximo mês. Sugeridos/votados
A desumanização – Valter Hugo Mãe -4 votos
Vermelho amargo –Bartolomeu Campos de Queiroz 1 voto
Por parte de pai – Bartolomeu Campos de Queiroz —
Morreste-me – José Luiz Peixoto 1 voto
Mrs. Dalloway – Virginia Woolf 4 votos
Dado o empate, sorteamos no papelzinho tirado pela Rose. Vencedor A desumanização.
E assim dou por encerrado este relato.

Adendo: Vilmar explica o que deixei mal explicado.

Clea, como sempre muito bom o seu relato. Na questão sobre Einstein, creio não ter me expressado corretamente. Não é que ele não soubesse matemática, ele simplesmente não era um Newton ou um Liebnitz ou um Pascal, o que o levou a retardar a publicação da Teoria da Relatividade. Diz-se que Oppenheimer, o físico que coordenou o Projeto Manhattan que levou à primeira bomba atômica, o criticava pela lentidão de raciocínio quando deparava-se com cálculo complexo. Contudo, ninguém conseguiu raciocínios tão profundos quanto Einstein no que concerne ao Estratégico e ao Sistêmico. Até a constante universal (k) usada por ele e considerada o seu maior erro, inclusive por Oppenheimer, mostra-se agora modernamente um acerto estonteante. Por fim, uma curiosidade sobre Einstein, ele gostava muito de xadrez mas não jogava porque achava não ser justo perder uma partida em que o planejamento estratégico era superior mas cuja execução do tático ou do operacional fosse falha.

Vilmar

Abraços
Cléa

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