Cléa Sá

O Mar, John Banville

Caros companheiros de leitura:

Este nosso grupo está tão sabido e com discussões tão profundas que fica cada vez mais difícil relatar o que acontece nas reuniões. Esta pobre escriba vai tentar, não garante resultados. E assim, de antemão, pede aos participantes que acrescentem ao relato o que considerarem relevante e tiver sido deixado de fora. Mês passado isso foi feito e foi bom.
Começo com a lista dos presentes: Andrés, Bete, Carmen, Cléa, Gláucia, Inês, Josenita, Noé, Roberto, Tadeu e Virgínia. Muitos ausentes, e todos eles nos fizeram falta, garanto. “Mas é a vida, é a vida… “ Gonzaguinha. Preparem-se, pois apesar do alto nível da discussão, alguns pensadores populares se fizeram presentes, como Zeca Pagodinho com o seu “debaixo do céu e acima do chão, qualquer lugar é bom” e Paulinho da Viola com “não sou quem me navega, quem me navega é o mar”.
Compositores brasileiros à parte, vamos navegar.
O livro O mar, excelente recomendação de Tadeu, foi considerado bom, bem escrito e muito poético por todos. Até aí, unanimidade. Quanto ao personagem/narrador, cujo o próprio nome é duvidoso, as opiniões divergiram. Para uns, ele já estaria morto. Seria a narrativa de um defunto, como o nosso Brás Cubas, de Memórias póstumas. Isso por que, entre outras coisas, em certo momento ele diz “Acabou de passar alguém sobre o meu túmulo.” Para outros, não. O personagem/narrador está vivo, se vê com maus olhos e é totalmente dominado por um agudo sentimento de culpa. Culpa que na verdade não tem. Mas ele se vê sempre com seus olhos de criança, que é quando se pensa que o mundo gira em torno de nós e somos mais importantes do que realmente somos. Desejoso sobretudo de ascender socialmente, incapaz de estabelecer relacionamentos, vivendo sem a menor cerimônia às custas da mulher, sem escrupúlos de viver de um dinheiro mal ganho, assim foi visto o personagem/narrador por muitos. Por alguns, embora fossem verdadeiras parte dessas interpretações, havia nele uma profunda dor pelas perdas sofridas desde a infância: a ausência do pai, a convivência com uma mãe pouco amorosa, a morte dos amigos e o assédio sofrido na infância pelo médico, que teimava em não reconhecer. A morte da mulher veio reacender toda essa dor. Será que foi isso mesmo que foi dito?
E por que O mar? Por que esse título? Longas explicações. O mar seria a testemunha presente em todos os acontecimentos e ao mesmo tempo totalmente indiferente a eles. A natureza segue seu curso e nós, em nossa pequenez humana, apenas nos debatemos procurando um rumo. O mar seria o símbolo da morte, da separação, para alguns; para outros, biólogos, fonte de vida. E como reproduzir o que foi dito sobre o Apocalípse, a Nova Jerusalém, onde o mar não existe, e sobre a estrela Aldebarán? Não me sinto capaz, embora tenha sido bonito de se ouvir. Só Noé é capaz. A palavra é sua, Noé.
Também falou-se de Bonnard, o pintor, e de sua relação com sua mulher, seu modelo de toda vida, vista sempre como se o tempo para ela não passasse. E falou-se também da morte e do esquecimento que ela traz. E também da dor das perdas e da dificuldade de sua superação. Sobrou pouco tempo para se falar dos outros personagens: os gêmeos e sua estranha relação, Chloé, Miss Vavasour, seu provável, ou melhor, seu real interesse nas mulheres. Houve uma associação com a história de Reparação, do Ian McEwan, o engano causado pelo olhar inexperiente de uma criança sobre um fato, muito semelhante ao que ocorre também nessa nossa história.
Bem, dou por encerrado aqui esta parte do relato. Como disse antes, que venham as complementações.
E passo agora a uma outra lista, a da nossa mesa de lanche, que estava tentadora, desafiando as dietas e nos incitando ao pecado da gula. Eis o que tivemos:
Quibe quentinho do Beirute, com molho tártaro, esfirra também quentinha, molho pesto, pães diversos, sanduiche gelado de pão de forma recheado com atum e maionese, bolo de iogurte, bolo da Josenita, feito por ela e que é uma receita de família com passas, vinho, chocolate, torradas com alho, croissants recheados de chocolate, biscoitos cobertos com açúcar, cookie de chocolate e, para beber, vinho do Porto, cerveja Teresópolis, iogurte de mamão, suco de pêssego, suco de uva, café, leite, chá, água mineral e água.
Na mesa do café, falamos das nossas leituras e entro assim na terceira lista:
Andrés – Só livros de formação. Do Curso do Instituto de Psicanálise Lacaniana , de Jorge Forbes, S.P;
Bete – Continua com os livros citados na reunião anterior, Proust, por exemplo;
Carmen- Pulso, de Julian Barnes;
Cléa – Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, O livro do travesseiro, Sei Shônagan, Morte em Pemberley, P.D.James;
Gláucia- Só livros técnicos, de estudo;
Josenita – Carta ao filho, de Betty Milan, Toda Poesia, Paulo Leminski e mais Freud e Lacan, sempre;
Noé – A seguinte história, Cees Nooteboom, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação, de J. D. Salinger, Dietrich Bonhoeffer, vida e pensamento, Werner Milstein, D.B. Discípulo-Testemunha-Mártir, Harald Misscifitzky, As sessões, Cheryl T. Cohen Greene, Prédicas e alocuções, Dietrich Bonhoeffer;
Roberto – O mar, John Banville, Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, e continua com livros citados na reunião anterior;
Tadeu – O silêncio do túmulo, Vozes e O segredo do Lago, de Arnaldur Indridason, História do mundo em 6 copos, Tom Standage e Toda Poesia, Paulo Leminski;
Virgínia – Heróis demais, Laura Restrepo, Para Cima e Não Para Norte, Patrícia Portela, o coração das trevas, Joseph Conrad, Histoire d’une vie, Aharon Appelfeld.
Passou-se à escolha do livro para ser lido e discutido em maio. O livro escolhido por aclamação foi “Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio”, de Herta Müller, uma linda demonstração de gentileza de todos para com esta que vos escreve. ( O motivo: vou viajar, já li este livro, Carmen descobriu cedo meus propósitos maléficos e egoistas, mas me perdoaram e aceitaram). Já temos, porém, algumas indicações para o livro de junho. São: Homem em queda, de Don Delillo, A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra e um livro do Pepetela, citado na reunião anterior. Nóe sugeriu que de preferência fosse indicado um livro já lido e aprovado por um de nós. Pensem nisso. Na próxima reunião trataremos do assunto e bateremos o martelo.
Fico por aqui. Esclareço que as muitas listas desse relato se devem à influência do meu mestre Umberto Eco, que tem mania de lista, mania da qual compartilho.
Tenho retratos da noite de ontem, mas mando depois.
Foi uma reunião muito boa, como sempre. A próxima será na última quarta-feira de maio, dia 29. Sáude e alegria para todos

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