Cléa Sá

O Mapa e o Território

Amigos, amigos

Éramos Andrés, Cléa, Tadeu, Virgínia, Vilmar e Zita, os saudáveis resistentes ao tempo seco. Depois das conversinhas preliminares cheias de sabor, tomando vinho do Porto e comendo guloseimas, tratamos de O Mapa e o Território com muita coragem.
O livro foi considerado genial por um de nós, que o considerou o melhor dentre os que lemos este ano. Já os demais não demonstraram tanto entusiasmo assim e houve mesmo uma discordância quanto a isso.
O Mapa e o Território faz uma análise sociológica do tempo atual, com ênfase na Europa, a França em particular. Há um mapeamento de uma série de temas, grandes e pequenos, indo das dificuldades nas relações humanas ao gosto particular por cães e aos preços de passagens aéreas. Consumo, velhice, solidão, fama, amor, arte, pintura literatura, arquitetura, turismo, culinária, suicídio, morte assistida e trabalho são abordados. Talvez algum outro tema tenha nos escapado.
O autor mistura pessoas reais aos personagens que cria e se faz também personagem, introduzindo um escritor, o próprio Michel Hoouellebecq, na história. E como se achasse pouco, faz com que ele seja assassinado e de modo brutal. O estilo que pareceu a um de nós pouco literário, foi considerado por outros como atual, contemporâneo. Ele escreve bem, tem muito senso de humor, os personagens são muito bem construídos, se sustentam, e as descrições de acontecimentos e lugares são convincentes. Sempre optando pelo realismo, em raros momentos cria um clima lírico, que chega a nos comover. A conversa de Jed com ao pai no último natal que passam juntos é um desses. O livro sofre alterações, dá guinadas. De repente parece outro livro, uma história policial e chegamos a nos perguntar se aquele pacato pintor seria um assassino frio. No meio de todas as mudanças, só Jed Martin é sempre o mesmo, um homem solitário e artista independente.
Em alguns momentos, poucos, o livro se torna fastidioso: quando faz digressões sobre especificidades como, por exemplo, a arquitetura. Dá vontade de pular as páginas.
Gostamos muitos dos personagens. Jed Martin, o pintor, nos pareceu a representação do artista no mais alto grau: intuitivo, perseguia o tema que lhe chegava quase por acaso e a ele se dedicava por anos a fio até que se estancasse a fonte de onde provinha aquele desejo intuído. Primeiro se dedica à fotografia de mapas e às criações dela decorrentes; depois, pinturas abordando as profissões, procurando mostrar que o determinante no mundo atual é o que a pessoa faz, o que produz; e por último, “o ponto de vista vegetal sobre o mundo”, quando se dedica a complicadas fotos e filmagens e representação de seres humanos sob forma de bonecos. E cria em seu terreno como uma grande instalação, a sua representação particular do mundo.
Os personagens Olga, a bela russa, Maryland, a eficiente relações-públicas, Franz, o galerista e o comissário Jasselin são tão bem descritos que tornam-se reais.
No livro, o tempo transcorre de modo diferente, mas isso não chegou a ser discutido. Falamos também sobre o título do livro, mas não estou conseguindo me lembrar com exatidão. Peço socorro.
Bem, queridos companheiros, em suma foi isso. Passamos depois à nossa mesa de café que dessa vez tinha bolo de aniversário e festejamos, com alegria, os nossos queridos aniversariantes Zita e Andrés.
E passo às nossa leituras:
Andrés -Luz antiga, John Banville
Cléa – Cartas de Madame de Sévigné
Fera d’alma, Herta Muller
Tadeu – A promessa do livreiro, John Dunning
Violetas de março, Philip Kerr
Todo aquele jazz, Geoff Dyer
Myggale, Thirry Jonquet
O Tango da velha guarda, Arturo Pérez- Reverte
Vilmar – Guia politicamente incorreto da América Latina, Leandro Narloche Duda Teixeira
As chaves de Salomão, Ralph Ellis
A Utopia, Thomas More.
Virgínia – As benevolentes, Jonathan Littell
Pais e filhos, Ivan Turgueniev
A noiva libertada, A. B. Yehoshua
O Mapa e o Território
O sermão sobre a queda de Roma, Jérôme Ferrari

Zita – O mapa e o território

Tivemos alguma dificuldade para escolher o livro para o próximo mês. Mas conseguimos três indicações: Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos, O tango da velha guarda, de Arturo Pérez-Reverte e A maçã envenenada, de Michel Laub. Houve um empate entre o Tango e a Maçã. Resolvida a questão em sorteio, ganhou A maçã envenenada. Bom para lermos um novo escritor brasileiro.
Foi dada também a sugestão para trazermos na proxima reunião além da lista das nossas leituras indicações de livros.
Com isso, encerro. A nossa próxima reunião será na quarta-feira, dia 25 de setembro, em plena primavera.
Abraços
Cléa

O Mapa e o Território 

Michel Houellebecq
Trad.: André Telles
Record
400 págs.
R$ 49,90

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