Cléa Sá

Memórias póstumas de Brás Cubas

Relato da reunião de 6 de agosto, onde tratamos das Memórias póstumas de Brás Cubas

Bela escolha fizemos para retomar as atividades do nosso grupo de leitura: ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. A noite foi quase perfeita. O quase por conta das sentidas ausências de nossos queridos que não puderam, por razões maiores, participar.

Estavámos Andrés, Carmen, Ceissa, Cléa, Inês, Josenita, Roberto, Regina, Tadeu, Vilmar e Virgínia. Começamos levemente com assuntos diversos: as andanças de Carmen procurando confirmar sua identidade, os ecos da FLIP narrados por Andrés, a angustiante busca de Tadeu por um diagnóstico que tardou, o rapto de cientistas alemães por aviadores norte-americanos no final da segunda Guerra Mundial, os passos de Regina para encontrar um vinho especial para nosso deleite, e outros temas até chegamos ao momento imprescindível sem o qual não poderíamos seguir adiante: os 7 a 1 da derrota do Brasil para a Alemanha. Ah! Como era necessário! Falamos e falamos, contamos o que fizemos e o que sentimos, fizemos a boa e sentida catarse, e só então, aliviados, entramos no romance de Machado.

Machado de Assis, tanto para os que o leram pela primeira vez como para os que o releram, revelou-se como o grande nome da literatura brasileira, o bruxo cheio de encantamentos: seu domínio da língua, a fluência e exatidão do seu estilo, sua fina ironia, seu ceticismo, sua cultura, e, e … Impossível reproduzir todos os elogios. Todos nós gostamos do livro.

Machado de Assis nos conta uma história aparentemente simples, um romance de amor com alguma dose de cinismo, e, como se fosse fácil, nos revela o Brasil do segundo reinado: nobreza miúda, burgueses endinheirados e tolos, escravocratas empedernidos, comerciantes ditos caridosos mas ferozes no trato com os escravos, e os conchavos políticos, as ambições pequenas, e as dores dos pobres, a vida dos despossuídos. Brás Cubas, justamente chamado por um de nós de burguesinho mal acostumado, é um homem que nunca trabalhou na vida e só desejava as glórias a que não fazia por merecer. Tintas de educação, verniz de cultura, mau caratismo. Exemplo de brasileiro daquela época? De nossa época, também? Alguém fez um paralelo entre ele e Macunaíma, o herói sem caráter, de Mário de Andrade.

Outros personagens aparecem sem disfarce: Virgília, Marcela, Cotrim revelam o lado escuro presente na natureza humana. E Quincas Borba? Pretende explicar o mundo com sua filosofia, que é uma crítica, segundo um de nós, ao darwinismo, e torna-se uma figura patética ao enlouquecer e ter consciência da sua loucura. Triste demais.

Alguns trechos do livro foram lidos e comentados e nos levaram a falar do homem, do Joaquim Maria Machado de Assis, e da sua vida, buscando entender como foi possível tal grandeza. Um menino pobre, sem acesso a educação diferenciada, vivendo em situação de agregado, como pôde tornar-se o autor que se tornou? O escritor, quem sabe o maior da nossa literatura, que em meados do século XIX fala para pessoas do século XXI e é atual, pertinente, e ainda nos conduz, nos fazendo sorrir com sua ironia, a reflexões sobre a nossa atualidade? Grande mistério, talvez só explicado pelo Humanitismo.

Josenita e Roberto enriqueceram a discussão trazendo outro livro de Machado, Dom Casmurro, lido por eles em um belo engano. Assim, fomos lembrados de Capitu, dos ciúmes de Bentinho, de Escobar, da mãe beata, e da traição ou não de Capitu. Ocorreu de fato? Criação da imaginação de Bentinho? Não houve tempo para tentarmos desvendar esse outro mistério. Talvez em outra reunião. Que Machado de Assis nunca é demais.

Passamos, como de costume, para nossa mesa de café, que estava soberba. E enquanto nos deliciávamos, comendo e bebendo coisas gostosas, falamos das nossas leituras. Ei-las:

Andrés – O Fim da Historia da Arte – Hans Belting;

Carmen – Flores artificiais, Luiz Ruffato;

Ceissa – A história de Animal, Indra Sinha, 1808, Laurentino Gomes, Primeiras estórias, Guimarães Rosa, Suave é a noite, Scott Fitzgerald;

Cléa – Um outro amor, Karl Over Knausgard, O caminho de Ida, Ricardo Piglia, A guerra começou, onde está a guerra?, Albert Camus, A invenção da terra de Israel, Sholon Sand;

Inês – A desumanização, Valter Hugo Mãe, O caminho de Ida, Ricardo Piglia, Auto-da -Fé, Elias Canetti;

Josenita – Dom Casmurro, Machado de Assis;

Roberto – Dom Casmurro, Machado de Assis, Como viver o Ou uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta, Sarah Bakewell;

Regina – Café com Lucien Freud, um retrato do artista, Geordie Greig, O ladrão honesto e outras histórias, Dostoievski;

Tadeu – A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea, de Romain Puértolas, Ele está de volta, Timur Vermes, A verdade sobre o caso Harry Quebert, Joël Dicker;

Vilmar – Desaparecida de Novo – Doug Johnstone; Lições de Italiano – Peter Pezzelli; Caminhada após a meia-noite – Katy Hutchison e Melodia de Segredos – Jeffrey Stepakoff.  Destaque para Melodia de Segredos, The Melody of Secrets, que se mostra perfeito para análise sobre Ética e Estado. Romance baseado na situação real de cientistas alemães (a equipe comandada pelo eng. Von Braun, pai dos foguetes que lançaram a bomba V2 sobre a Inglaterra e que foram aperfeiçoados para levarem o homem à Lua) que foram capturados pouco antes da derrota nazista e levados para trabalhar para Nasa nos Estados Unidos;
 
Virgínia – Entre amigos e Uma certa paz, Amós Oz, A morte de Virgílio, Hermann Broch, O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam – Evandro Affonso Ferreira, Canções mexicanas, Gonçalo M. Tavares, Juventude, J.M.Coetzee;

E para que não se perca a beleza, as leituras de Noé serão apresentadas por ele mesmo, no e-mail que enviou ao grupo:
Querid@s amig@s,
Infelizmente, Gláucia e eu não poderemos desfrutar da saudosa companhia de vocês, hoje, no banquete literário sobre nosso Bruxo do Cosme Velho, mas, estamos juntos nessa confraria. Sei que não preciso”chover no molhado”: o quanto vocês são significativos pra nós. Não reli as “Memórias”, mas revi recentemente a versão do Júlio Bressane. Mas, esta semana, por causa do grande apreço de vocês pelo walter hugo mãe (especialmente da Betinha), encarei com muito gosto os três romances dele. Li “A contadora de filmes” e lembrei da Cleíta, nossa contadora de romances. Li “A paixão de A.”, do Baricco e lembrei que a Carmen gostou tanto de “Seda”; nossos hermanos Bolaño (“Monsieur Paim”) e Tomás Eloy Martinez (“Purgatório”) – meu preferido- me lembram que a Zita e o Andrés os lêem em espanhol e o Carrière (“Os fantasmas de Goya”), que o Tadeu o lê em francês. O Bataille no cinema me levou à Tauromaquia, que a Luisinha me ensinou. Por fora, meu dever de leitor do grupo, me levou ao Kadaré (“Uma questão de loucura”) e ao Tanisaki (“Há quem prefira urtigas”), que me remetem à Virgínia, ao Roberto, à Josenita, ao Vilmar, à Maria Inês, à Ceissa, à Nilma, à Regina, à Vera e aos demais, que, eventualmente, enriquecem nossas conversas. Para finalizar, li e compartilhei com o Paulinho, um livro de “contos” sobra a ditadura e e seus ecos, do Bernardo Kucinski, com que eu gostaria que tod@s vocês se emocionassem também : “Você vai voltar pra mim” (ele está lendo o romance “K”, do mesmo autor, que eu já pedi).
Tudo isso pra estar “presente” e dizer que lhes desejamos ótima reunião e esperamos revê-l@s em breve.
Gláucia manda um abraço.
Um grande abraço.
Noé Stanley

Com este gran finale, encerro esta parte do relato.

A nossa próxima reunião está marcada para a primeira quarta-feira de setembro quando discutiremos o livro De repente, uma batida na porta, do escritor israelense
Etgar Keret, autor que Andrés conheceu na FLIP. O livro concorreu aqui entre nós com O caminho de Ida, de Ricardo Piglia. Foram 7 votos para De repente e 4 para O caminho.

Tentei de todos os modos fazer alguma espécie de “ductibilidade” ao modo de Machado, mas não consegui. Faltou a esta escriba engenho e arte.
Até setembro

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