Cléa Sá

Homem em queda

Queridos companheiros

Ontem, dia 31 de julho, tivemos mais uma das nossas inesquecíveis reuniões para discutir o livro de Don DeLillo, Homem em queda. Éramos poucos, apenas sete: Andrés, Cléa, Luisinha, Josenita, Roberto, Tadeu e Vilmar. Sentimos falta dos nossos queridos que pelos mais diversos e justos motivos não puderam vir e temos certeza de que com eles a discussão seria mais rica, mas concluo, orgulhosamente, que demos conta do recado. Vou contar, usando meus parcos meios e pedindo que a memória não me traia, o que aconteceu:
Começamos por ouvir o relato do “Nosso homem na FLIP”, Tadeu, que falou um pouco do que viu, descreveu o clima harmonioso da cidade, falou do show do Gilberto Gil e do seu encantamento pela escritora iraniana Lila Azam Zanganeh, por quem ficou apaixonado. E também contou boas histórias do neto, que participou da Flip para crianças.
O tema do livro, o ataque às torres gêmeas de Nova Iorque, nos levou inicialmente a muitos assuntos candentes: a posição dos Estados Unidos com seu poderio indiscutível no mundo de hoje e suas consequências trágicas: as guerras do Iraque e do Afeganistão, a luta antiterrorismo e a raiva que desperta na maioria dos países do mundo. O mundo não mais foi o mesmo após o atentado. O fato de ter sido o primeiro ataque bem sucedido em território americano foi considerado um marco na história do nosso tempo, um paradigma, e pode ser comparado à Revolução Francesa e à Revolução Russa. Constatamos também como, quase sem exceção, os Estados Unidos influenciam o mundo com sua indústria cultural, cinema, música e literatura, causando em muitos de nós certa ambiguidade na nossa maneira de ver aquele país, uma mistura de amor e ódio. Falamos também de fatos recentes, do Edward Snowden a Julien Assange, passando pelo controle das informações que se dá em esfera planetária e que está em poder dos norte-americanos. Claro que também lembramos o impacto que tivemos com a notícia ou com a visão do ataque, onde estávamos então e por aí afora. De todas, a melhor, no meu entender, foi a do Vilmar que estava em uma conferência na Venezuela cercado de gringos. Imaginem!
Bem, passemos ao livro.
O Homem em queda agradou com pequenas exceções. Foi considerado de difícil leitura para poucos e houve quem também fizesse reparos à tradução. No mais, aprovação total. A história é montada dentro do contexto do ataque terrorista e os personagens nele se movem e vivenciam aquele mundo em mudança, sabendo que a segurança é um bem que não voltará para eles. Para um de nós, o impacto não foi grande para os americanos, com o que ninguém concordou. Consideramos que foi grande sim e isso aparece nas situações vividas pelos personagens. Exemplos: as três crianças que dominadas pela imaginação e em face de que a situação jamais lhes foi explicada, criam uma história fantasmagórica e resolvem controlar os céus e os aviões: os relatos dos velhos que sofrem de Alzheimer que tentam, pela escrita, preservar o que lhes resta de memória, mas ao fugirem ao tema apenas mostram ainda mais a sua importância; a angústia presente em Lilian de forma constante, e nesse caso deve-se a outros motivos também: suicídio do pai, relação próxima e ambígua com a mãe; a volta do marido para casa após o choque e sua evasão completa do mundo real, fugindo para os campeonatos de pôquer; a difícil relação da mãe de Lilian com seu namorado em razão da posição divergente quanto aos terroristas, que é uma constante nos seus diálogos e que abala a relação amorosa que, podemos supor por indícios, deva ter sido bonita; e, principalmente, o homem em queda, personagem enigmático que na sua performance constante e repetida não permite que as pessoas se esqueçam da tragédia vivida. E ainda, mostrando a grandeza do autor, o dia a dia dos terroristas mostrados não como bandidos celerados, mas como homens cheios de fé e de grandeza, abandonando seus sonhos e desejos por uma causa que consideram justa. Sem julgamento moral. Chamou-se atenção, ainda, para os ricos pensamentos dos personagens e para a excelência dos diálogos.
Enquanto essa conversa gostosa se dava, tomávamos nosso vinhozinho do Porto comendo guloseimas. Depois passamos à mesa do café com outras coisas boas e até um chá inglês, que segundo me disseram é o preferido da Rainha. Acreditem, se quiserem.
E aí começamos a discorrer sobre nossas leituras. Ei-las:

Andrés – O testamento de Maria, Colm Toybin
Luz antiga, John Banville
O anjo esmeralda, Don DeLillo
O erotismo, George Bataille;

Cléa – Carta ao filho, Betty Milan
A infância de Jesus, J.M. Coetzee
A varanda de frangipani, Mia couto
O livro das belas adormecidas, Yasunari Kawabata
Um, nenhum e cem mil, Luigi Pirandello
Uma breve história da eternidade, Carlos Eire
Homem em queda, Don DeLillo
O chamado do poente, Gamal Ghitay
Tempos fraturados, Eric Hobsbawm; (junho e julho)

Luisinha – Homem em queda
Histórias de Paris, Mario Benedetti
A borra do café, Mario Benedetti
Arthur Bispo do Rosário, o senhor no labirinto, Luciana Hidalgo;

Josenita – Antes do fim, Ernesto Sabato

Roberto – Fernando Pessoa homoerotismo, psicánalise e sublimação, Durval

Checchinato
Pulso, Julian Barnes;

Tadeu – Impressões e provas, John Dunning
Coule la Seine, Fred Vargas
Max e os felinos, Moacyr Scliar
Não conte a ninguém, Harlan Coben
Jazz, Luiz Fernando Veríssimo
Os crimes do mosaico, Giulio Leoni
O domo de Brunelleschi, Ross King
O cisne de prata, Benjamin Black (John Banville)
La carte et le territoire, Michel Houellebecq
Alta ajuda, Francisco Bosco
Extension du domaine de la lutte, Michel Houellebecq
Cinco séculos de poetas portugueses, de Camões a Fernando Pessoa
Cleonice Berardinelli (recomenda) (junho e julho);

Vilmar – Trovão e chuva, Charles Martin
Iris & Ruby, Rose Thomas
Abandonados para morrer, Nick Ward
O sonho de Hannah, Diane Hammond;

Ceissa – Uma certa paz – Amós Oz
Equador, Miguel Souza Tavares
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Dom Quixote de la Mancha, Cervantes,

Noé –
Leituras do mês de junho
Homem em queda, Don Delillo. (O dever de casa)
Do que a gente fala, quando fala de Anne Frank, Nathan Englander.
Para alívio dos impulsos insuportáveis, Nathan Englander.
O ministério de casos especiais, Nathan Englander.
Uma breve história da eternidade, Carlos Eire.
As sombrias ruínas da alma, Raimundo Carrero.
O filho da mãe, Bernardo Carvalho.
Presença de mulher, Saul Bellow.
Eu, um outro, Imre Kertész.
O original de Laura, Vladimir Nabokov.
Uma noite em 67, Renato Terra e Ricardo Calil.
A Era os Festivais – uma parábola – Zuza Homem de Mello
Noites das mil e uma noites, Naguib Mahfouz.

Virgínia –

O homem em queda

As benevolentes, Jonathan Littel

Zita – Homem em queda
Ar de Dylan, Enrique Vila-Matas.

Gente, fiquei cansada de tanto copiar nome de livro. Que povo mais ilustrado.
E agora, os finalmente.
Só houve uma indicação de leitura para o próximo mês, O mapa e o território, de Michel Houellebecq, feita por Tadeu e aprovada por unanimidade.
A próxima reunião será, excepcionalmente, na última terça-feira de agosto, dia 27. E isso por que dia 28 é aniversário dos queridos Andrés e Zita e não podemos dispensá-los nem impedi-los de comemorar a data. Certo?
Assim, encerro aqui este relato esperando ter sido fiel aos acontecimentos e pedindo desculpas se não consegui lograr tal intento. Se alguém quiser acrescentar algo, será muito bem aceito.
Cléa

 

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