Cléa Sá

As nuvens

Com grande atraso (perdoável, espero) traço o relato de nossas impressões sobre As Nuvens de Juan José Saer. Impressões que renderam um delicioso debate que quase ultrapassou as doze badaladas. Estavam presentes Cléa, Noé, Vilmar, Nilma, Josenita, Roberto, Bete, Carmen, Tadeu, Andrés, Inês e eu… Luisa.

Enquanto era aguardada a chegada dos retardatários, Cléa e eu aproveitamos para compartilhar com os já presentes nossas “prospecções em terras argentinas”, entre um e outro cálice do já tradicional vinho do Porto. Nossa anfitriã, sempre metida em peripécias, onde quer que vá, investigou e desvendou o mistério de Jorge Luis Borges no Café Tortoni de Buenos Aires… para quem não ouviu, depois ela conta. Histórias e aventuras à parte, fomos unânimes em perceber uma certa melancolia no povo daquelas paragens.

Bem, antes do relato é bom que se diga o livro despertou reações e sentimentos diversos. Houve os que adoraram a prosa de Saer, a maioria, creio, e os que sequer conseguiram passar das primeiras páginas. O curioso é que justo Josenita não gostou do que leu e por isso não enfrentou a saga do Dr. Real e seus louquinhos até o final, frustrando a expectativa de muitos que viram no texto e, sobretudo, nas personagens um prato cheio para a análise da nossa querida leitora-psicanalista. Mas não pensem que a participação dela foi menor: seus preciosos toques sobre a loucura e sobre o Dr. Real deram o que pensar. Para ela, “o Dr. Real se achava o tal”.

Noé viu como fio condutor do livro o rebatimento exterior-interior – e não a memória -, ressaltado principalmente durante a viagem. Ou seja, os percursos físicos exteriorizaram as trajetórias interiores das personagens, e, em especial, do protagonista, um médico-aprendiz a quem o autor batizou de “Real”.  Este último detalhe foi salientado por Carmen e todos concordamos que houve uma clara intenção na escolha dos nomes: Real, Weiss (que é como se conjuga o verbo saber em primeira pessoa no alemão…e talvez no holandês), Teresita (em referência a Santa Teresa de Ávila e seu êxtase divino) etc.

Bete percebeu que o livro divide-se em três partes distintas. A primeira parte passa-se na Paris do século XX e trata do resgate da história (verdadeira ou imaginada?) contada pelo Dr. Real; a segunda, mais descritiva, introduz e contextualiza as personagens. A terceira, que tem como marco o início da viagem do Dr. Real para buscar seus loucos, é a peça literária, é o romance. Essa constatação da Betoca animou todos aqueles que abandonaram a leitura nos primórdios a recuperarem o tempo perdido.

Vilmar encantou-se pela ponte que o livro fez com a filosofia e os textos da antiguidade. Parece que até já encomendou as Bucólicas de Virgílio e, se as Parcas disserem que sim, ele fará o relato para nós de sua épica leitura.

Já o Tadeu chamou-nos a atenção para a cidadezinha onde Real se instalou para esperar os loucos. Era próxima a seu lugar de infância (e próxima ao lugar de origem do próprio Saer), do outro lado do rio, para onde o protagonista, paradoxalmente, não conseguiu voltar. O lugar da infância estava, na verdade, dentro dele e não mais naquele lugar.  E esse rio caudaloso, que arrastava tudo e todos consigo, também foi entendido como uma importante personagem.

Cléa e Nilma confessaram seu arrebatamento pelas personagens. Todas, salvo o militar que desafiou o Dr. Weiss, despertaram nelas muita ternura e curiosidade… Como não podia deixar de ser, a preferida de Cléa foi Soror Teresita.  Por esse motivo nossa anfitriã já queria “pular” a sequência da discussão para chegar logo na freirinha assanhada que, para falar a verdade, atiçou todo mundo. Aí, Noé entrou na jogada e nos deu uma aula sobre fé e êxtase místico/físico. Chegamos à conclusão que nossa atração por Teresita deveu-se ao fato de ela reunir dois aspectos explosivos: mística e sexualidade. Ficou patente, também, a alusão a Santa Teresa de Ávila.

Bem, pegamos carona com Teresita e fizemos uma análise dos outros loucos, embora pela tangente. Prudencio Parra representaria a loucura da razão (vale lembrar que ele devorava livros antes de surtar); Troncoso, com seu fabuloso projeto político, lembrou-nos os caudilhos sul-americanos; Verde e Verdecito…bem…nem argentinos eram (vinham do Paraguai). Entendemos que havia subentendida uma crítica às contradições presentes na formação da identidade do povo e da própria Nação Argentina. Um assunto que merece ser aprofundado.

Carmem fechou o debate falando da solidão das planícies, quando Real se viu fora de seu contexto, sentiu sua infinita pequenez diante das forças da natureza que sequer o percebiam e que dele prescindiam… e fez uma viagem para dentro. Eis o trecho, extraído da página 145, em que sozinho na planície, à espera de Osuna, Real observa seu cavalo e reflete:

“Durante alguns segundos, tive a impressão inequívoca de que fingia, e, quase em seguida, a total convicção de que ele sabia mais do universo do que eu mesmo, e portanto compreendia melhor do que eu a razão de ser da água, do capim cinzento, do horizonte circular e do sol chamejante que fazia seu pêlo suarento brilhar. Por causa dessa convicção vi-me de repente num mundo diferente, mais estranho do que o habitual e no qual não somente o exterior como também eu mesmo éramos desconhecidos. Tudo mudara num segundo, e meu cavalo, com sua calma impenetrável, me tirara do centro do mundo e me expelira, sem violência para a periferia. O mundo e eu éramos outros, e em meu íntimo nunca voltamos a ser completamente os mesmos a partir daquele dia, de modo que quando desviei os olhos do cavalo e voltei-os para a água azul-clara, para o capim acinzentado, vendo a cápsula azul que se fechava apoiando-se na linha do horizonte conosco dentro, dei-me conta de que naquele mundo novo que estava nascendo diante de meus olhos, o supérfluo eram meus olhos, e que a paisagem estranha que se estendia em torno, feita de água, capim, horizonte, céu azul, sol chamejante, não lhes estava destinada.”

Roberto não sentiu afinidade com a história e Andrés foi à reunião para ouvir, pois ainda não tinha começado a leitura. Eu…fiquei sentadinha, bem atenta e anotando tudo para garantir o máximo de fidedignidade ao presente relato. Será que consegui?  Afinal, essa também é uma questão que o autor coloca no início do livro: até onde é possível representar fidedignamente o acontecer? Soldi afirma que não tem nenhuma fé na história…”O que percebemos como verdadeiro do passado não é a história, mas nosso próprio presente, que se projeta e olha para si mesmo no exterior”.

Nosso guru Noé ainda indicou as leituras e os filmes que se seguem para que aprofundemos nossa compreensão acerca de temas que emergiram na tertúlia:

– filme: A Palavra, de Carl Theodor Dreyer;

– filme: Teresa, o corpo de Cristo, de Ray Loriga (hum, acho que aqui cabe registrar um comentário instigante de Noé que ainda precisamos entender melhor: “Teresa de Ávila e São João da Cruz são os dois místicos de Lacan”… Noé, a palavra está com você…);

– livro: A Alma Imoral, de Newton Bonder;

– livro: As Nuvens, de Aristófanes (este aqui também lembrado por Vilmar, nosso estudioso de filosofia e teatro grego).

Para ficar bem na fita, pago a prenda pelo atraso com algumas informações extraordinárias sobre Juan José Saer.

Vejam que interessante… Pichón, Soldi e Tomatis, personagens da primeira parte do livro, são protagonistas de uma obra anterior de Saer, “A Pesquisa”. Entretanto, o romance “As Nuvens” não é exatamente a continuação de “A Pesquisa” em que pese haver nos dois textos reflexões sobre a história e sobre a loucura e sua repercussão social.

Os estudiosos da literatura hispano-americana vêem em alguns trechos de “As Nuvens”, homenagens literais aos textos de Borges, seja no gosto por personagens gauchescos, seja na equiparação da paisagem dos pampas – tão plana e tão igual a si mesmo – com o mar, e que, como o mar, é transformada em palco de epopeias. Há quem enxergue um matiz de Cervantes em Saer…

Dito isso, em um nublado 10 de junho de 2011, lavro a presente ata que espero seja considerada conforme pelos amigos do “Na Rede”, aos quais dedico duas pérolas de Jorge Luis Borges, o fantasma do Café Tortoni…

Nubes (I)

No habrá una sola cosa que no sea

una  nube. Lo son las catedrales

de vasta piedra y bíblicos cristales

que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,

que cambia como el mar. Algo hay distinto

cada vez que la abrimos. El reflejo

de tu cara ya es otro en el espejo

y el día es un dudoso laberinto.

Somos los que se van. La numerosa

nube que se deshace en el poniente

es nuestra imagen. Incesantemente

la rosa se convierte en otra rosa.

Eres nube, eres mar, eres olvido.

Eres también aquello  que has perdido.

Nubes (II)

Por el aire andan plácidas montañas

o cordilleras trágicas de sombra

que oscurecen el día. Se las nombra

nubes. Las formas suelen ser extrañas.

Shakespeare observó una. Parecía

un dragón. Esa nube de una tarde

en su palabra resplandece y arde

y la seguimos viendo todavía.

¿Qué son las nubes? ¿Una arquitectura

del azar? Quizá Dios las necesita

para la ejecución de Su infinita

obra y son hilos de la trama oscura.

Quizá la nube sea no menos vana

que el hombre que la mira en la mañana.

 

Dia 27 de maio de 2011

Relato feito por Luisa VilaVerde

 

 

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