Cléa Sá

Amsterdan

Relato da reunião realizada em 24 de outubro de 2012

Amigos, amigos:

Como relatar a nossa reunião de ontem e ser fiel a tudo o que foi dito? Bem, acho que só seguindo o conselho do Coelho à Alice: “Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare”. Pois bem, assim farei.

Começamos tomando vinho do Porto e conversando amenidades enquanto esperávamos a chegada dos demais companheiros. Quando estávamos todos reunidos, Andrés, Bete, Carmen, Ceissa, Cléa, Inês, Josenita, Roberto, Regina, Tadeu, Virginia, Vilmar e Zita, iniciamos a discussão sobre o livro Amsterdan, de Ian McEwan. De início, o livro foi considerado por alguns superficial e decepcionante. Como um autor tão bom escreve um livro assim? E esse livro recebeu o Broke Prize ? Para outros, no entanto, o livro é bom e trata com profundidade das relações humanas.  Os personagens pertencem à alta classe inglesa: um empresário rico, George, um músico e compositor de renome, Clive, um ministro de Relações Internacionais cotado para Primeiro Ministro da Inglaterra, Garmony, um editor de um jornal importante em fase de declínio, Vernon, e uma mulher já morta, que foi mulher do primeiro e amante dos outros três, Molly. A história é simples e curta. A nós pareceu que mais importante do que a história em si – o enredo poderia ser resumido em poucas linhas e não vou fazê-lo para não tirar a surpresa de quem ainda vai ler o livro- é a dissecação das relações entre os personagens. A natureza humana é mostrada no que tem de mais execrável e de uma maneira que só é possível a um bom autor. A maneira como a amizade de Vernon e Clive, que vem da juventude, se deteriora a partir de críticas feitas de um ao outro e vice-versa e passa ao crime, impressiona, sobretudo porque sempre respaldada por histórias que eles contam a si mesmos, justificando suas ações, mesmo as mais mesquinhas e aéticas. Os outros personagens também não são essas coisas. O ministro é um direitista que detesta os imigrantes e defende a pena de morte, e até a mulher do ministro, uma médica competente e que dá a impressão de altruísta, se revela também apenas desejosa de não perder a sua posição social (surpresa para esta pobre escriba). Um de nós, que não gosta dos ingleses, exultou. (Mas o autor é inglês e se se dispõe a revelar essas entranhas do poder de maneira tão crua, tem aí um inglês que se pode aproveitar: o próprio).

Um tema está subjacente no correr da história: a eutanásia. Para uns, pareceu que ela é justificada pelo autor, para outros, não. Segundo esses últimos, não há argumentos, o assunto é tratado com pouca profundidade, de forma leviana. Foi? Deixo a pergunta para maiores esclarecimentos. Para alguns, outro tema presente é o do desejo de poder. Todos o querem e mais que todos, George.  E Molly, quem era mesmo? O que sabemos dela? Objeto de desejo daqueles homens? Usada por George para obter poder? Não concluímos.

Houve concordância quanto ao estilo do autor: é bom, bonito, consegue criar suspense em determinados momentos e é crítico quanto ao modo de vida atual.

Outros assuntos vieram à baila em razão do livro: o direito à privacidade, o direito às nossas fantasias, inclusive a de nos transvestirmos, e, quase fazendo exame de consciência, somos nós capazes de atuar sempre segundo nossas convicções morais? Ai, ai, ai!

Não sei mais por que se falou de ponto G e do Obama e do Clinton. Mas falamos sim e houve dubiedade de interpretações. (Que perdoo. Sinto falta do acento  ^ no perdoo. Que se há de fazer? É a reforma.)

Esse clima inteligente e de alto nível foi chamado de “uma esbórnia” por um ouvinte casual. Que também já foi perdoado, porque ajudou a tomar conta do Corisco.

Bem, passamos em seguida para nossa mesa de café, cheia de coisas gostosas: bolos, pães de queijo,  esfirras, sucos, tortas, leite, café. E aí falamos das nossas últimas leituras:

 

Andrés – Terminou finalmente de ler Inconsciente e Responsabilidade, do Jorge Forbes. Está lendo Joseph Anton – Memórias, de Salman Rushdie e Porventura, de Antonio Cícero;

 

Bete – Amsterdan, Ian McEwan;

 

Carmen – Leu um livro, mas não lembra o autor nem o assunto. Seriam contos? Leu um de arte, História de …, de Graça…hum.. da Editora Ática…  Hum, hum. Só sabe que vai a  New York, New York depois de amanhã.  Leu o Guia de Nova Iorque.

 

Ceissa – A mulher foge, de David Grossman;

 

Cléa – A casa da seda, de Anthony Horowitz, um novo romance de Sherlock Holmes e poesias;

 

Inês – Homer & Langley, E.L. Doctorov, O sentido de um fim, Julian Barnes, Sempre a mesma neve, sempre o mesmo tio, Herta Müller;

 

Josenita – Janelas, de Juliano Cazarré;

 

Roberto – O chapéu de Vermeer, de Timothy Brook;

 

Tadeu – Paris é uma festa, Ernest Hemingway, Paris nunca se acaba, Enrique Vila-Matas;

 

Virgínia – Expurgo, Sofi Oksanen, O homem sem qualidades, de Robert Musil;

 

Vilmar – Cosmogônicas, Italo Calvino, Univers from nothing, Lawrence M. Krauss;

 

Zita – Nêmesis, Philip Roth, A arte de viajar, Alain Botton.

 

 

Houve uma mudança importante nos nossos planos. A mulher foge, anteriormente escolhido para o próximo mês, ficou para a primeira reunião do ano que vem, na primeira semana de março. Para novembro, porque teremos festa, vamos ler um livro menor. Foram sugeridos o Conto de uma ilha desconhecida, de José Saramago e O Livro de Areia, de Borges. O livro do Borges foi o escolhido, por unanimidade. Então leremos os contos e na hora se resolve qual deles será discutido. E combinamos mais, que vamos trocar presentes.  Assim cheguei ao final.

 

Ainda não. Tem mais.

 

  1. Regina, que estava em Londres, andou por aquele      parque por onde andou o Clive, no Lake District, e também não gostou do      barulho dos estudantes. Que tal?
  2. E olhem o que achei no Google: Quando o livro   recebeu o prêmio Man Booker Prize de 1998, foi assim apresentado: “um      exame irônico e sábio da moral e da cultura do nosso tempo”.
  3. Roberto sugeriu que um dia discutíssimos poesia. Arrojado, não? O que dizem?
  4. E em homenagem aos ingleses THE END

4 Responses para “Amsterdan”

  1. Angelina Vargas
    29/10/2012 at 10:55 #

    Minha querida amiga. Voce sempre surpreendendo. Minha clarisse melhorada, voce é demais. Beijos saudades. Angie.

  2. zita de moura leal
    26/10/2012 at 11:37 #

    Cleíta, cada vez gosto mais de seus relatos táo lindos e bem escritos. Tudo estava perfeito até as xícaras pelas quais me apaixonei. Esse é um momento que aguardo com muita ansiedade todo mês. Fico muito triste quando não posso comparecer. Ainda não comecei a ler Borges porque estou gostando muito de Nêmesis e quero terminar antes. Bjos até a próxima que promete muito mais.

    • cleasa@uol.com.br
      26/10/2012 at 12:17 #

      OI, Zitinha,

      Sempre acho nossas reuniões ótimas. Já no dia seguinte estou com saudades de todos. Novembro promete. Beijos
      Cléa

      • Cléa Sá
        Cléa Sá
        29/10/2012 at 12:59 #

        Angelina, que coisa boa ler seu generoso comentário. Nós precisamos nos ver. Você sabe que lhe quero bem? Pois quero e muito. E estou com saudades
        Cléa