Cléa Sá

Altos voos e quedas livres

Nossa jornada pelo mundo encantado dos livros continua e continua bem. A reunião de ontem, apesar da sentida falta dos nossos companheiros que não puderam vir por conta de uma gripe acachapante e por outros motivos válidos, transcorreu lindamente, com grandes momentos, que tentarei registrar de maneira adequada. Talvez consiga, talvez não. Mas peço aos presentes que se quiserem e puderem acrescentem suas contribuições a este relato.

Para começar, presentes Andrés, Bete, Cléa, Inês, Luisinha, Heloísa, Marisa, Tadeu e Vilmar. Enquanto tomamos um delicioso vinho do Porto trazido por Regina (que pena você não estar presente, Regina) e comemos iguarias – esfirras, pães de queijos, biscoitos, amendoins – tratamos de assuntos variados e leves como os balões que nos aguardavam para entrar em pauta.

“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma.” Esta frase inicial do nosso Altos voos me leva a dizer “você junta várias pessoas, um bom autor, uma boa história; e o mundo se transforma”. É o que ocorre ao ver quão variados são nossos encontros e como mudam e se transformam em função das pessoas presentes, do autor e da história trazida para nossas informais reuniões. Cada uma é diferente da outra, mas todas têm sido enriquecedoras. É um momento de particular felicidade que todos nós esperamos e saboreamos ao máximo.

Passemos ao livro. De início, Bete sugeriu que o tratássemos por partes, como foi acertadamente dividido pelo autor. O primeiro capítulo, O pecado da altura, dividiu as opiniões. Foi considerado por alguns como “ só fofoca, desanimador, sem sentido, quase inibiu minha leitura, muito interessante”. Mas ao se discutir o possível sentido das pequenas inserções fomos vendo que além de serem preparatórios para o que viria a seguir, tinham também um sentido próprio: o desejo do homem de alçar voo, de sempre querer ir mais alto, talvez à procura de Deus, talvez em busca de aventura. E era o estabelecimento de metáforas que depois seriam entendidas. Nessa parte da discussão tivemos um fato inusitado: Vilmar falou das alturas do amor e da profundeza da sua perda, e foi ovacionado. Isso mesmo. Recebeu palmas!!!!!

Conduzidos por Bete, seguimos para o segundo capítulo: nele há pequenas histórias que estabeleceram paradigmas para o amor e para sua perda. As histórias do amor de Nadar por sua mulher e a de Fred Burnaby por Sarah Bernhard nos encantaram e deram o tom para o que viria a seguir, a história de amor de autor por sua mulher, sintetizada na frase: “Nós ficamos juntos por trinta anos. Eu tinha trinta e dois quando nos conhecemos, sessenta e dois quando ela morreu. O amor da minha vida; a vida do meu coração”.

E é sobre essa perda, esse grande luto que, magistralmente escrito, trata o terceiro capítulo do livro. Sem sentimentalismo, com grandeza, um homem que não crê em Deus e não tem esperança de uma vida após a morte, encara a dor e nos conta a sua caminhada na solidão. Das pequenas e grandes dores, dos acertos e desacertos dos amigos que tentam lhe trazer consolo, da memória que precisa ser preservada assim como a dor que é bem-vinda, enfim, de um grande amor vivido em plenitude, o que nos pareceu claro, sobretudo porque em nenhum momento no texto aparece culpa ou remorso. Um homem feliz, reconhecemos. Nem todos têm a felicidade de ter vivido um amor assim.

Embora no correr da vida todos nós tenhamos sofrido perdas e em mais de algum momento tenhamos nos identificado com o autor, o livro não nos entristeceu. A observação de Andres sobre a diferença entre o que poderia ser apenas um desabafo e que se torna uma pequena obra-prima está no fato de ter sido feita por um grande escritor, sintetizou o que pensamos.

Outras observações pertinentes foram feitas: como cada perda é única, como as reações são particulares, intransferíveis, como não se pode nem se deve medir dores, e outras tantas que não consigo reproduzir.

Passamos ao nosso café com leite em volta da mesa e tivemos uma conversa alegre. Ficamos felizes com a volta da Marisa, que não ficou para o café, e de Heloísa.
Falando de Heloísa, descobrimos as suas muitas e perigosas ligações. Vejam, en passant, ela foi colega do Collor e rapidamente passo dessa nota desabonadora para outras venturosas. Também foi colega e é amiga do Milton Hatoun, que já lhe ofereceu publicamente uma crônica, foi colega de trabalho de Nelson Rodrigues no jornal O Globo, e dormiu na cama do Tom Jobim. Podia ter visitado o Barão de Itararé e frequentado os Sabadoyles de seu tio avô, o que não fez e se arrepende. Quer tal?

Na conversa, Luisinha contou alguns clássicos de suas confusões e Vilmar histórias de suas viagens a trabalho, onde um embaixador era um conhecido deles: Zé Maconha. Nós rimos muito, mas não posso entrar em mais detalhe. Quem viu, viu, quem não viu tem de perguntar ao Obama.

Vamos às leituras. Mês de poucas.
Andrés – só está lendo coisas sérias de estudo para seu trabalho de Curador de Artes da CL. O nome do cargo é esse mesmo?
Bete – A desumanização, Valter Hugo Mãe e Miserere, Adélia Prado;
Cléa – Prosa, Elizabeth Bishop e Barba ensopada de sangue, Daniel Galera;
Inês – O beco dos mortos, de Ian Rankin, 1Q84, 3º vol. Haruki Murakami;
Luisinha – A desumanização e O blog da Cléa (que honra!)
Marisa – Heresia, S. J. Parris, Zelota, Reza Aslan e 1Q84, 1º vol. Murakami;
Vilmar – O capital do século XXI, Thomaz Piketty. Vai mandar a lista dos demais por e-mail.

Livros indicados para escolha para leitura no próximo mês:

– O silêncio das montanhas, Khaleb Hossein
– O ladrão do fim do mundo, Joe Jackson
– O castelo de papel, Mary Del Priore
– Noturno indiano, Antonio Tabucchi
– Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
– Angústia, Graciliano Ramos.

Na votação, com 8 votantes, tivemos o seguinte resultado: 2 votos para Noturno indiano e 6 para Memórias póstumas de Brás Cubas. É o livro.
A reunião será dia 2 de julho, uma quarta-feira mas sem jogos da Copa. Tadeu e Inês gentilmente verificaram.
Aqui encerro este relato, mas antes meus votos de plena recuperação para nossas doentinhas Carmen, Josenita e Virgínia e também para que Noé esteja conosco brevemente. Ele ganhará palmas na chegada, não precisará nem falar.

De Tadeu

Olá Cléa e amigos de leitura,

Que relato!!! Acho que eu nem irei na próxima reunião, pois o texto da Cléa já basta. Consegue nos transmitir todo o clima, o ambiente e as emoções do encontro!
Mas, devido, provavelmente, ao seu interesse pelas ligações perigosas da Heloísa, ela esqueceu de citar o único livro que li no mês. Ótimo esquecimento, pois me permite fazer propaganda dele.
Leitura obrigatória.
Para mim ajudou a completar algumas lacunas, como, por exemplo, aquela coisa de Prússia e da confusão geopolítica daquela “pré”-Alemanha da época de Bach, bem como, em outro momento, da luta dos catalães por autonomia e contra a ditadura franquista, exemplificada pela vida de Casals. Além do mais, ir atrás das gravações de Casals e ouví-las no carro ou no i-pod, durante as minhas corridas.
Livro muito bom mesmo!

AS SUITES PARA VIOLONCELO
J.S. Bach, Pablo Casals e a busca por uma obra-prima barroca
Autor: SIBLIN, ERIC
Tradutor: SETTE-CAMARA, PEDRO
Editora: E REALIZAÇOES

De Vilmar

Clea, é sempre bom ler os seus relatos. Os nomes dos livros que li na Seleções de Livros, na verdade são condensações dos livros, são: A promessa – Ann Weisgarber; Desaparecida – John Connor; Ponto por ponto – Terri Dulong e Filho da Revolução – Luis Garcia.

De Josenita

Gente,

já estou afônica, que mais poderia me acontecer se não conseguisse
segurar minha frustração, pra não dizer outra, palavra forte demais.
Não somente por ter perdido o convívio e as discussões, mas tb por
não compartilhar com vcs o que me suscitou a leitura. Um belíssimo
livro, desses de se guardar com carinho, bem pertinho da gente. Sem
pieguices e sem ser de todo racional, Julian Barnes, segue o fio dos
acasos da vida, dos amores e da morte, O sem sentido da vida, diria
Freud. Aliás, lembrei- me, principalmente na terceira parte, de Freud
o tempo todo, entre outros textos de Luto e Melancolia, 1915, tb um
excelente escritor. E, confesso, me emocionei até às lágrimas
quase o tempo todo, na última parte.. A delicadeza e ao mesmo tempo
a contundência do relato diz de sua grandeza como escritor, concordo
com Andres. Pra mim, a frase mais forte do livro e que me tem ocorrido
mtas vzs é, é apenas o universo fazendo o seu trabalho.

Cléa, vc conseguiu , como sempre, um relato precioso.
Bete, gostei tanto de sua sugestão. Pois li as duas primeiras partes perseguindo
o que ele queria dizer com todos aqueles fatos e especulações.
Obrigada Tadeu pela indicação. Que pena que perdi a fala de Vilmar e todas
as outras coisa que vcs trouxeram à baila e a oportunidade de conhecer a tão
famosa, Heloísa.
E toda essa falação é tb por culpa da obrigação de ficar calada. Sto. Deus!

________________________________________

Este email está limpo de vírus e malwares porque a proteção do avast! Antivírus está ativa.

Sem comentários ainda.