Cléa Sá

AFIRMA PEREIRA

Afirmo que na última quarta-feira, dia 27 de maio, nos reunimos para falar do livro de Antonio Tabucchi Afirma Pereira. Estávamos Andrés, Bete, Cléa, Inês, Josenita, Nilma, Noé, Regina, Roberto, Virgínia, Vilmar e Zita. Afirmo, também, que os que não puderam vir tinham motivos sólidos, viagens, doenças próprias ou de familiares e nós os desculpamos, embora sentíssemos suas ausências.

Bem que eu queria continuar afirmando como o Pereira, mas é difícil imitar o autor. Vou por outro caminho. E passo a descrever como foi o nosso encontro e as muitas afirmações, negações, digressões e conclusões que a leitura do livro nos propiciou.
Começamos como de praxe tomando nosso vinho do Porto, comendo guloseimas e botando os assuntos em dia. Sempre nos reencontramos com saudades e com muitas perguntas a serem feitas e respondidas. Depois passamos ao livro que consideramos muito bem escrito e de leitura fácil.

Pereira, um intelectual português de meia idade, é responsável pelo caderno cultural de um jornal, O Lisboa. Vive no Portugal de 1938, alienado do que se passa na vizinha Espanha, em dura luta civil, e no próprio país que sofre a tenebrosa ditadura de Salazar. Viúvo, solitário, gordo, tem poucos amigos e é com retrato da mulher que conversa a respeito das suas andanças do dia a dia e especula sobre fatos. Não é um personagem, é uma pessoa real. Ele desperta em nós empatia: sofremos com sua falta de ar ao subir escadas ou ladeiras, torcemos para que pegue taxi, temos o mesmo olhar enviesado para a porteira do seu escritório, informante da policia secreta. Enfim, gostamos de Pereira, de suas afirmações sempre precisas e lógicas, de sua recusa em fantasiar os fatos à medida que deles toma conhecimento. Pois o que acompanhamos é a transformação de um homem, o seu processo de afirmação diante da vida real, a sua saída da alienação e as difíceis decisões que toma. Pereira encontra ao acaso pessoas que o impulsionam para a mudança. Ou Pereira está pronto para mudar e apenas precisa de algo ou alguém que lhe dê o empurrão necessário? São quatro as personagens que vão induzir a transformação do católico jornalista: dois anti-salazaristas militantes (Monteiro Rossi e a namorada, Marta), um padre (António) e um médico (doutor Cardoso). E há, em passant, a judia do trem. O fato é que assistimos à tomada de consciência de Pereira e sua transformação, ao mesmo tempo em que não perde suas características. Assim, quando se prepara para fugir com passaporte falso, não esquece o retrato da mulher e é com o mesmo cuidado que o coloca na mala.

A história de Pereira nos levou por muitos caminhos.

Falamos sobre mudanças das pessoas e suas motivações. Consideramos que a capacidade de mudar independe de idade, lembramos, aliás, do livro A viagem vertical de Vila-Matas e as transformações do seu personagem depois dos 70 anos, atribuímos ao amor a maior motivação, mas ela também pode ser fruto do desejo pessoal, da autoanálise, enfim, de muitas causas. Todos achamos interessante a teoria do doutor Cardoso de que não existe um único “eu” , mas uma pluralidade dentro de cada um de nós, sobre a qual, se estabelece um eu hegemônico, que varia em função de circunstâncias. Questão tratada pela psicologia atual, sem que se use mais o nome de “conglomerado das almas”.

O fato de viver sob uma ditatura, sujeito às delações, aos medos, aos perigos nos levou a outro caminho. Também falamos das nossas experiências nesse campo, alguns de nós sofreram perseguição, prisão, e as marcas desse passado angustiante ainda permanece. Virgínia narrou um encontro recente com o filho de um torturador e como foi dura experiência. Primeiro, o choque; depois o entendimento do sofrimento daquele que carrega uma culpa pela qual não é responsável; e por fim o entendimento da nossa humanidade, presente sempre, desde que estejamos abertos para vê-la.

Falamos também do homem comum em tempos extraordinários, do conceito de Hannah Arendt da banalidade do mal, e da descoberta do DNA, da falta de ética de cientistas e falamos ainda de religião e de muitos outros assuntos que não consegui registrar. Mas afirmo com segurança que muitas ideias foram lançadas e discutidas e ainda que este grupo é bom demais.

Vejam as nossas leituras:

Andrés – Submissão, Michel Houellebcq;
Bete – Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier;
Cléa – O século, Ken Follet, Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr, Sallinger, David Shields e Shane Salerno, Saí cedo, levei meu cachorro, Kate Atkinson, Afirma Pereira;
Inês – Afirma Pereira, Antonio Tabucchi, Boneco de Neve, Jo Nesbo;
Josenita – Vermelho amargo, Bartolomeu Campos de Queiroz, Afirma Pereira;
Nilma – Afirma Pereira;
Noé – Afirma Preira, Os inimigos íntimos da democracia, Tzevtan Todorov, …ismos para entender o cinema, Ronald Bergan, Conversas com Woody Allen, Eric Lax, Canções proibidas, filme de Zakazawe Piosenki, Mulheres só, Cesar Ravese (é filme?);
Roberto – Sobre os desenganos do mundo, Sêneca;
Vilmar – Lar, doce, lar – Mary Clark; A lista de natal – Richard Evans; O assassinato do rei Tut – James Petterson e Martin Dugard; Agua, pedra, coração – Will North;
Virgínia – Sombras marcadas, Kamila Shamsie, O segredo do oratório, Luisa Valente, A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe, Afirma Pereira;
Zita – Viagem aos seios de Duília, Orígenes Lessa, Antologia da Literatura Fantástica, Tchau, Lígia Bojunga.

Passamos à nossa mesa de café com muita coisa gostosa, até bolo de aniversário. Inês e eu éramos as aniversariantes e muito felizes sopramos as velinhas. Passamos então a escolher o livro para o próximo encontro.

Foram sugeridos e tiveram votos os seguintes livros:

Noturno indiano, Antonio Tabucchi – 1 voto
Uma vida em segredo , Autran Dourado – 5 votos
O meu irmão, Afonso Reis Cabral – 1 voto
A outra volta do parafuso, Henry James – 3 votos
Obsv. Vilmar e Andrés saíram antes da votação.

Encerro este relato com a certeza de que ele está longe de contar com fidedignidade os acontecimentos da reunião, que foi como todas as demais muito boa. O nosso próximo encontro será na última quarta-feira de junho, dia 24. É dia de São João. Será um problema?

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