Cléa Sá

A mulher foge

Para os companheiros do grupo de leitura e para todos os que gostam de livros e leitura

Relato da reunião de fevereiro

Livro: A mulher foge

Autor: David Grossmann

Ah! Foi uma beleza o nosso primeiro encontro desse novo ano: muita alegria em nos revermos, muita conversa agradável, muita coisa gostosa para saborear, vinho do Porto para degustar. Só um porém, os queridos  companheiros que não puderam vir. E imagino que com suas contribuições voos ainda mais altos teríamos na nossa discussão. Mas, de qualquer modo, voamos bem.

Estávamos Andrés, Carmen, Ceissa, Cléa, Gláucia, Inês, Josenita, Noé, Roberto, Tadeu, Virgínia e Zita seguindo a trilha da mulher que fugia por montes, bosques, colinas e montanhas da Palestina. Uma jornada emocionante, mesmo para quem não tinha completado a leitura do livro, pois os assuntos que foram surgindo, muitos deles, independiam da leitura.  Várias abordagens podiam e foram feitas: uma religiosa/bíblica, uma política e uma literária. Vamos começar pela última:

O livro foi considerado muito extenso para uns, na medida certa para outros.  A história é contada por Orah para Avram em sua longa e atormentada viagem por Israel/Palestina, fugindo da possível notícia da morte de seu filho que está no front, na guerra contra o Líbano. (?) Ela, que se diz pagã e materialista, faz acertos com quem? Pareceu-nos que com a própria vida, se é que isso é possível. E de revelação em revelação reconstruímos sua história e a dos seus filhos, marido e amante e também a história de judeus e palestinos naquela terra conflagrada. E sobressai, nessa trágica história, Avram, figura magistral que a fatalidade impede da plena realização e que mesmo assim nos impressiona, inclusive por sua não-vida, como  diz. E novas personagens, tão bem construídos que nos parecem reais, aparecem na história e deles não nos esquecemos: Sunny, o motorista palestino, o homem que anda pela trilha interrogando as pessoas que encontra para aplacar a saudade,  o velho palestino aprisionado no frigorífico, o casal de velhos que diarimente faz o mesmo percurso de ônibus e a namorada de Avram, da qual infelizmente esquecemos de falar. O autor nos leva a sentir o desespero do pequeno Ofrem ao descobrir que as pessoas matavam os animais para comer a sua carne e ainda ao se descobrir judeu e perceber o perigo a que estava sujeito por essa condição; a tortura infindável daquela  mãe com a qual nos identificamos em muitos momentos e que precisa falar,  falar e falar para esconjurar o mal  (a morte do filho). Os momentos em que faz um buraco na terra para a ela confidenciar o seu desespero ou em que escreve  suas lembranças à luz de uma fogueira foram partilhados por nós em algumas das nossas experiências de vida.

Em uma leitura política, alguns viram em Orah a própria Palestina, já que os dois homens com quem partilha a vida desde a sua adolescência podem significar judeus e árabes, ambos donos daquele pedaço de chão, em luta inglória. E para muitos de nós é  ate difícil entender como se vive assim, nessas condições, e também foi dito que a guerra é como uma necessidade para a construção da identidade daqueles povos sem pátria. Será que foi isso mesmo que foi dito?

As interpretações religiosas estão mais difíceis de traduzir. Sei que Orah foi comparada a Abraão, pois ao levar o filho para se apresentar no front revivia a passagem bíblica em que Abraão leva o filho Isaac para o sacrifício, e teve mais,  a importância da palavra (verbo) para os judeus, vide a Cabala,  judeus serfraditas, culpa, crime e castigo. E mais a figura paterna (Javé)  e a aceitação ou  rejeição ao filho. Ufa! Só Noé para escrever esse pedaço.

E não é que nós fugimos da Mulher que foge e fomos para o filme Amor, de Hanekee, e tivemos uma bela conversa sobre o amor, relação pais e filhos, coragem e dedicação levada às últimas consequências? E daí, continuando nossa fuga, falamos dos tempos atuais, da morte de crianças em carros, esquecidas pelos pais, novamente relação paiXfilho, nas relações de trabalho asfixiantes, nas condições estressantes do mundo de hoje. Será que queríamos estabelecer um paralelo com o país em guerra que acabáramos de visitar?

Passamos então para nossa mesa acolhedora, em que cabemos todos qualquer que seja o número,  e tínhamos sucos, bolos, café, leite e comemos e bebemos e falamos de nossas leituras. Ei-las:

Andrés – Ar de Dylan, Enrique Vila-Matas, O que resta, Lorenzo Mammi, A educação pela pintura, Paulo Pasta, En un lugar solitario, Enrique Vila-Matas;

Carmen- Onde está tudo aquilo agora, Fernando Gabeira, Como viver – ou uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte respostas, Sarah Bakewell, O chapéu de Vermeer, Timothy Broke, Paris, e a festa continuou, de Alan Riding, Revista Granta, nº 10, Medidas extremas;

Ceissa – O homem lento, J.M.Coetzee, Correio do tempo, de Mario Benedetti, Gracias por el fuego, Mario Benedetti;

Cléa – O velho Graça, Dênis de Moares, O exército furioso, Fred Vargas, 1984, Harumi Murakami, A  mulher foge, David Grossman, e pelas praças não terás nome, James Baldwin, O Segredo do lado, Arnaldur Indridason;

Gláucia – Fogo amigo, A. B. Yehoshua, Diário do poder, Frei Beto;

Inês – Cem contos de amor do séc. XIX, O exército furioso, Fred Vargas, Onde está tudo aquilo agora, Fernando Gabeira;

Noé – Desvario, David Grossman, Marighela, o guerrilheiro que incendiou o mundo, Mario Magalhães, Viagem ao fim do milênio, A. B. Yehoshua, Fogo amigo, A. B. Yehoshua, Minha alma é irmã de Deus, Raimundo Carrero, A noiva libertada, A. B. Yehoshua, O senhor Mari e a cinco estações (de quem, Noé?) New York x Paris, Anuário das Mostras de |Cinema de São Paulo;

Roberto – A sagrada família, Zuenir Ventura, Marinho Lutero, um destino, Lucien Fevbre;

Tadeu – O chapéu de Vermeer, Timothy Broke, Como a geração sexo- drogas -e -rock’n’roll salvou Holywood,  Peter Biskind, Alfred Hitchcock e Os Bastidores de Psicose, Stephen Rebello;

Virgínia – Persuasão, Jane Eyre, Barba ensopada de sangue, Daniel Galera, Ninhonjin, Oscar Nakasato, Neve, Ohran Pamuk, O retorno, Dulce Maria Cardoso, Kafka à beira mar, harumi Murakami, Dez mulheres, Marcela Serrano, Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee, Fantasma sai de cena, Philip Roth;

Zita –  A contadora de filmes, Hernán Rivera Letelier, A mulher foge, David Grossman.

Passamos, então, a escolher o livro para o próximo mês. Apenas duas indicações, O O ar de Dylan, Enrique Vila-Matas e Diário de um ano ruim, de J.M.Coetzee. A votação apresentou o seguinte resultado, Ar de Dylan, 3 , Diário 7. Não votaram Inês e Ceissa que precisaram sair mais cedo.

Batido o martelo. A próxima reunião será na primeira semana de abril, precisamente no dia 3 .

Até lá. Livro lido e coração contente, nos encontraremos, na graça de Deus.

Cléa

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