Cléa Sá

A maçã envenenada

A maçã envenenada, Michel Laub

Um rapaz de dezoito anos está servindo o Exército, no CPOR. Gosta de rock, tem uma banda, e encontra a primeira namorada, uma mocinha complicada. Quase é pego fumando um baseado quando está de guarda no quartel. Quer ver o show do Kurt Cobain em São Paulo. Dúvida cruel: vai ao show ou compra o silêncio do companheiro de guarda? O dinheiro só dá para uma das ações. Dito assim, é uma historinha bem insípida, não?
Mas não é só isso. A história tem outros ingredientes: suicídio que puxa suicídio, neurose, a força do acaso, a idealização e a identificação com ídolos, o massacre de Ruanda, a capacidade/incapacidade de superar tragédias, as teias e armadilhas que criamos e das quais não conseguimos sair, enfim, itens que produziram uma boa discussão.
Na trama, a capacidade de superação de Immaculée Ilibagiza se contrapõe ao sucídio de Kurt Cobain; os acontecimentos surgem aparentemente do acaso e perguntas tipo ” e se …eu tivesse ido ao show em São Paulo? e se… eu não tivesse o baseado? jamais poderão ser respondidas; como também se a Valéria não tivesse morrido seria ainda o grande amor do jovem? O personagem que conta a história anos depois mostra, já aos quarenta anos, continuou sua vida com relativo sucesso, mas nos parece bem infeliz, pois ficou para sempre preso a uma data e a um acontecimento. O que é trágico, convenhamos.
O livro foi considerado muito bem escrito e fácil de ler por alguns; para outros, o personagem parecia insincero, só se revelando no final em uma belíssima página; para outros era uma escrita enrodilhada, em círculos. Enfim, a história é contada em tempo não linear e devemos arrumá-la nós mesmos. Para alguns, é a história de relacionamentos, uma história de amor interrompida. Para outros, é a história de sobrevivência às tragédias, ou não.
Esta escrevinhadora precisava executar algumas tarefas domésticas, razão por que não pode acompanhar as intervenções com a devida atenção e, portanto, pede desculpas por não poder ser fiel ao estimulante debate. Sei que tanto falou quem leu o livro como quem não leu, e os assuntos foram do Holocausto ao Gênesis, da maçã envenenada, cujo veneno tanto podia ser o do conhecimento que levaria ao orgulho de querer ser como Deus, como o da descoberta do corpo e do sexo. Rodamos muito em torno da maçã envenenada e tivemos até uma maçã artesanal trazida por Josenita.
Estávamos Andrés, Bete, Carmen, Clea, Inês, Josenita, Nilma, Tadeu, Virgínia e Zita. Tivemos de início nosso vinhozinho do Porto, salgadinhos variados, e depois a nossa mesa de café e chá da Rainha, com outras guloseimas. Até sorvete. E não é que esqueci de pôr o suco na mesa, Zita? E Tadeu tirou fotos, que deve nos mandar. Estávamos lindos.
Eis a lista de nossas leituras:
Bete -Todos os fogos, o fogo, de Cortázar; Diário da queda, Michel Laub; Um copo de cólera, Raduan Nassar;
Carmen – Diário da queda, Michel Laub; O tempo entre costuras, María Dueñas; A melhor história está por vir, Maria Dueñas; Requiem de Berlim, Philip Kerr; O farol, P.D. James;
Cléa – O livro de Henrique, Hilary Mantel; O verão das bonecas mortas, Tom Hill; A maçã envenada; Meu coração de pedra-pomes, Juliana Frank;
Inês – O livro das maravilhas, Marco Polo; Carta ao filho, Bety Milan;
Josenita – Da parte do pai, Bartolomeu de Queiroz Campos;
Nilma – A maçã envenenada, Micheel Laub;
Tadeu – O tango da velha guarda, Arturo Pérez-Reverte; A pálida figura, Philip Kerr; Segredos do romance policial, P.D.James; Flores raras e banalíssimas, Carmen Oliveira;
Virgínia – O sermão sobre a queda de Roma, Jérôme Ferrari;Molloy, Samuel Beckett,; Mentiras, Philip Roth;
Zita – A maçã envenenada; Clarice na cabeceira, (jornalismo) Clarice Lispector; O apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe.
Passamos então à escolha do livro para o próximo mês. Indicados: O filho de mil homens, valter hugo mãe, Noites brancas, Dostoiévski, Pais e filhos, Turgueniev e Um amor, Dino Buzzati. Resultado: 6 votos para O filho de mil homens e 4 para Um amor.
Assim, teremos o escritor português para a nossa reunião de outubro, última quarta-feira do mês, dia 30. Até lá e boas leituras.
Abraços mil
Reunião do dia 26 de setembro de 2013

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