Regina Motta

XILOGRAVURA- Arte Nordestina

A criação na arte nordestina é uma combinação de construção/desconstrução do cotidiano popular. É permanente a alternância do real e do imaginário.
O sincretismo artístico do nordeste nos leva à mais bela e forte arte, tanto literária quanto cênica, folclórica e plástica.


A arte nordestina é riquíssima. Podemos dizer que está centrada em Pernambuco e Ceará dali irradiando-se por todo nordeste, partindo do sentido mais puro do popular e penetrando nas fronteiras do clássico como a arte do mestre Samico.


É representada por importantes pintores como Cícero Dias e João Câmara, desenhistas como Aldemir Martins, ceramistas como Francisco Brennand, Mestre Vitalino, Manoel Santeiro, gravadores como Mestre Samico, J. Borges, José Costa Leite, mestre Noza, Stênio Diniz, José Silva- o Dila, Ciro Fernandes, José Altino. É aos gravadores que vamos nos referir neste encontro. Isso devido à originalidade e pureza das criações desses artistas.


A Xilogravura, arte de gravar sobre madeira e imprimir em papel, remonta aos séculos XIII e XIV quando era utilizada por calígrafos e iluministas da época. No século XV chegou às ruas como linguagem autônoma, original, artística, sendo assinada e numerada por seus autores. Aportou no Brasil por volta do século XVIII e foi imediatamente divulgada e praticada por artistas de várias tendências.


No século XX grandes mestres como Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo divulgaram a técnica no Rio de janeiro e em São Paulo. Mas foi no nordeste que a arte tomou conta do imaginário popular tornando-se uma importante fonte de criação e de comunicação, não só artística, mas política, social e até mesmo erótica. Surgia o Cordel, nome dado aos trabalhos que ficavam pendurados em cordões expostos ao público nas praças e ruas das cidades nordestinas.

No cordel são contados causos, bravatas, critica aos políticos, intrigas até mesmo jocosas, denúncias, tudo com muito humor e criatividade.

Podemos citar como grandes cordelistas nordestinos em Pernambuco, Mestre Dila, José Costa Leite, Ciro Fernandes. No Ceará o Mestre Noza, pioneiro em 1930, na feitura do Cordel, João Pedro do Juazeiro, J. Borges, e na Paraíba, José Albino, entre outros, muitos anônimos e nem por isso menos interessantes e criativos.

Gilvan Samico é reconhecido internacionalmente por sua técnica absolutamente pura, pesquisada, perfeita. Samico nasceu em Recife, Pernambuco em 15 de junho de 1928, cresceu no bairro de Afogados e fixou-se em Olinda. Seu interesse pelo desenho surgiu ainda criança, como uma brincadeira. Desenhava tudo que via. Cercado de bichos, plantas e muito curioso, seus temas eram e permaneceram em sua história, as cobras, bodes, pássaros, flores coloridas, personagens de lendas e fábulas e o humano, quase angelical ou onírico, mágico, algumas vezes bíblicos.

Seu pai reconheceu o dom e levou-o ao atelier de Hélio Feijó. Dado o primeiro passo, não parou mais. Passou pela arte do Cordel com traço característico forte e expressivo. Fez parte de importante Atelier em Recife, estudou com Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo grandes mestres da xilogravura, participou de exposições no Brasil e no exterior, de Bienais internacionais, como a de Veneza mantendo sempre seu jeito simples, discreto, observador.

Faleceu em sua casa em Olinda, junto à sua família, em 25 de novembro de 2013.
“ Gilvan Samico não é apenas um extraordinário gravador. Ele é um dos maiores artistas brasileiros vivos”… – Frederico de Moraes.
…“Apesar de inspirar-se em motivos regionais o trabalho de Samico é universal”… Ramires Teixeira.
A arte popular nordestina nos leva à apreciação do sentido mais puro da alma criativa do brasileiro. As fotos falam por si só.

REFERÊNCIAS :
ALDEMIR MARTINS- Desenhos e gravuras- MASP/SP-1993
RUBEM GRILO – Xilogravuras – SP-1985
SAMICO- Linhas, Traços e Cores -CEF- 2014- Curadoria e texto de Renata Pimentel.
SAMICO- Frederico de Moraes. Revista Ícaro 1966
SAMICO- Fonte e refinamento- Roberto Pontual-Revista Ele Ela 1977
Fotos- Internet

2 Responses para “XILOGRAVURA- Arte Nordestina”

  1. josenita
    12/05/2014 at 13:43 #

    Regina, tomando emprestado um pedaço de verso de um poeta tb pernambucano, Ascenso Ferreira,

    deixo meu agradecimento – Vou danado pra Catende com vontade de chegar. Foi essa saudade que

    me despertou o que vc escreveu.

    Obrigada pelas recordações que me trouxe, Josenita.

  2. Francisco Pestana
    07/05/2014 at 21:13 #

    Que pesquisa rica e interessante, parabéns!