Regina Motta

TARSILA E MULHERES MODERNAS NO RIO


A proposta da exposição Mulheres Modernas no Rio, apresentada no Museu de Arte do Rio–MAR, é um belo documento da atuação das mulheres em várias manifestações de Arte, Política e de Movimentos Sociais, a partir do final do século XIX aos anos cinquenta.

Embora várias das mulheres citadas sejam de outros Estados brasileiros, foi no Rio que elas viveram, criaram e se destacaram. Inicialmente com as artes plásticas, surgiram as artistas do teatro, dança, cinema, literatura, música e as ativistas políticas e sociais.


No século XIX havia no Rio a cultura do Muxarabi, nome de origem islâmica, dado às treliças nas janelas que ocultavam a vida do interior das abastadas casas, ocultando assim as mulheres brancas que ali viviam reclusas. Voltadas para a família e religião pouco ou nada sabiam do que se passava fora de seus lares. Já as escravas tinham atividades fora de casa, trabalhavam nas ruas, participavam da vida oferecendo artigos e serviços. Éduard Manet, na época marinheiro, o futuro pintor famoso por retratar os costumes parisienses, observou essa situação relatada em seu diário.


A primeira manifestação artística que cruzou as portas das casas abastadas foi a pintura, principalmente com o paisagismo que registrava o “lá fora” do Rio. Exteriorizavam a luz do sol tropical, a flora e fauna em um momento único. Nessa arte se destacaram Abigail de Andrade, Adelaide Rocha, Maria Alice Bibiano e Amélia Costa que apesar das dificuldades e restrições venceram barreiras e contribuíram decisivamente para as artes plásticas brasileiras.


Ainda no século XIX surgiu o primeiro sinal do modernismo na arte como o oposto ao clássico, onde se destacaram Nair de Tefé, caricaturista, casada com o Presidente Hermes da Fonseca, trouxe para o Palácio do Catete a música de Chiquinha Gonzaga, num ato de verdadeira “promoter” da arte popular moderna do Rio, assim com o foram a “tia” Ciata, do samba carioca.


As irmãs Anna e Maria Vasco, famosas por pintarem Copacabana, então um alvo e descampado areal, já no início do século XX.

A Semana de Arte Moderna de 1922, marco da modernização da Arte no Brasil teve duas mulheres, Anita Malfatti e Zina Aita como iniciadoras do movimento.
Em 1917 Anita Malfatti, nascida em São Paulo e recém-chegada dos Estados Unidos onde estudou pintura, rompeu com o acadêmico da época numa exposição polêmica e verdadeira precursora do Movimento modernista do século XX. (ver post de 15/02/2014 desta Coluna).
Zina Aita nascida em Minas Gerais estudou pintura na Itália e adotou o Rio como sua cidade e expôs em 1920 sendo convidada para a Semana de Arte Moderna em São Paulo.

Em 1923, Tarsila do Amaral entra para o Movimento criando o processo Antropofágico que trataremos em próximo post.

Com a Capital Federal transferida para Brasília, foi construído um novo Rio artístico. Iniciou- se a criação de um Museu de Arte Moderna- MAM- com um acervo moderno de pós-guerra. No MAM , em 1958, sob a direção de Niomar Moniz Sodré, ali se reuniram as mais importantes artistas da época. Ali estavam Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Lygia Pape, Faiga Ostrower, Zélia Salgado, Anna Letícia, Anna Bella Geiger, Thereza Miranda e a encarregada do planejamento e serviços do Museu, Lota de Macedo Soares com Elizabeth Bishop. Maria Martins, famosa escultora que residiu nos Estados Unidos na década de 40, atuava com Niomar na parte estratégica no MAM.

Outro Museu de Arte foi iniciado por Pietro M. Bardi e Chateaubriand, porém foi transferido para São Paulo e é hoje o Museu de Arte de São Paulo- MASP, referência internacional, com projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi.

A dança é uma prática simbólica e cultural que atravessa a história do Brasil. Desde os povos indígenas passando pelos africanos até os colonizadores. As mulheres, desde as baianas do Samba, como “tia” Ciata e Mercedes Batista que influenciou a trajetória da dança-afro brasileira no Rio. As carnavalescas como Maria Augusta, Licia Lacerda e Rosa Magalhães marcaram sua presença.

Na dança clássica destacaram-se Maria Oleneva criadora da Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio onde Ana Botafogo foi aluna de Tatiana Leskova. Na dança moderna temos Angel Vianna, viúva do coreógrafo Klaus Vianna.

A literatura sempre foi muito valorizada no Rio, tendo grandes nomes femininos em suas páginas. Clarice Lispector, judia nascida na Ucrânia, adotou o Rio como sua “terra é terra, come-se, morre-se”. Em Clarice, “o corpo é carne viva que pensa e queima como água viva”. E “escrever não é quase sempre pintar com palavras?” palavras densas do sujeito moderno diante da vida insondável.
Na música a pioneira do moderno foi Chiquinha Gonzaga, carioca da classe média que desafiou o preconceito e subiu os morros em busca da essência da música carioca. Nos anos 60 Tom Jobim e Vinícius de Moraes eternizaram a música e a praia carioca com a canção “Garota de Ipanema”.

A música no Teatro Revista já estava presente desde o século XVIII. Com a visita de Josephine Baker, vedete francesa, abriram-se novos caminhos para o Teatro Revista com nomes como Elvira Pagã, Eros Volusia, Virgínia Lane, Iris Bruzi e Dercy Gonçalves.

A grande Carmem Miranda com o seu estilo tropical levou aos Estados Unidos a música brasileira, sobretudo a imagem do carioca.

Chegando ao século XXI mulheres modernas atuam na área política e social do Rio, tanto nas comunidades como a Nega Viana, como na ação das UPAs pacificadoras, Elizabeth Gomes da Silva- viúva de Amarildo, como as PM Priscilla Oliveira e Fabiana Aparecida Souza e Heloisa Buarque de Holanda e Eliana Souza e Silva nas Universidades.

Aconteceu nos anos 50 a desconstrução do puritano com Luz Del Fuego defendendo que a “indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano”. Com Norma Bengell aconteceu no cinema o primeiro nu frontal feminino da história do nosso cinema. Leila Diniz desmistificou a gravidez posando de biquini no mar de Ipanema nos últimos meses de gestação. Dois gestos ocorridos na praia, referência cultural para o carioca.
“Compreender a arte moderna produzida por mulheres é relacionar, inevitavelmente, modernismos e modernidades. Essas criações constituíram vontades subversivas, mudanças de paradigmas, invenções iconoclastas que envolvem quebras de pensamentos éticos, estéticos e morais”. Marcelo Campos, Curador.

REFERÊNCIAS:
– Exposição “TARSILA E MULHERES MODERNAS NO RIO”- MUSEU MAR- RIO DE JANEIRO;
Curadoria de Marcelo Campos, Nataraj Trinta e Paulo Herkenhoff;
-COLEÇÃO HELCILDA FADEL- coleção privada de arte feita por mulheres;
Fotos Internet.
REGINA MOTTA
Brasília, 17 de junho de 2015

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