Regina Motta

TARSILA E MULHERES MODERNAS NO RIO- 2ª Parte

Ao conversarmos sobre a exposição no MAR- Museu de Arte do Rio-onde se encontra a mostra do título acima, prometemos fazer um post especial sobre TARSILA DO AMARAL. Logo verão o porquê do destaque desta importante figura do Modernismo no Brasil.

Mulher de grande beleza, inteligência e presença ocupou lugar de destaque na vida artística e social do Brasil de sua época.


Tarsila nasceu em Capivari, interior de São Paulo, em 1º de setembro de 1886. De família abastada, ricos fazendeiros em São Paulo, filha de José Estanislau do Amaral Fº e de Lídia Dias Aguiar, passou sua infância com seus sete irmãos nas fazendas da família. Recebeu educação esmerada, num ambiente formado por obras de arte, bibliotecas particulares, saraus com músicas eruditas muitas vezes interpretadas por sua mãe ao piano. Com governanta belga, aprendeu cedo o francês, o que muito lhe serviu nas posteriores andanças pela Europa.

Estudou em colégios tradicionais na cidade de São Paulo e na adolescência foi completar seus estudos na Espanha. De volta ao Brasil (1906) casou-se com o médico André Teixeira Fº e teve uma filha, Dulce. Com a pressão do marido para que abandonasse as artes e a vida social, a diferença cultural e social, o casamento terminou cedo. Tarsila, com sua filha, retornou à sua família.


O início de sua formação como pintora se deu em 1917, ano da polêmica exposição de Anita Malfatti em São Paulo, marco do Movimento Modernista no Brasil. (ver post de 15/02/2004 desta COLUNA ).


Logo Tarsila parte para novos voos artísticos e segue para Paris (1920). Foi aluna de Fernand Léger, famoso pintor da época. No entanto, somente ao retornar ao Brasil (1922) Tarsila aderiu ao movimento da vanguarda artística brasileira. Anita Malfatti apresentou-a aos ícones do movimento, os escritores Oswald de Andrade, Mario de Andrade, o teatrólogo Menochi Del Picchia. Com eles e Anita Malfatti formou em seu atelier o “Grupo dos Cinco” que seria a semente do Modernismo Brasileiro.

Anita e Oswald de Andrade se uniram (1923) e o casal viajou pela Europa, retornando a Paris onde Tarsila, ciceroneada por seu companheiro, conheceu grandes artistas e retomou sua criação, apurando sua técnica que seria conhecida como “pintura lisa”.

De volta ao Brasil (1924) seguindo Oswald de Andrade que publicou o manifesto Pau Brasil, Tarsila pinta obras com tema tropical, destacando a exuberância de sua fauna e flora e as máquinas e fábricas, símbolos da modernidade. São desta fase as obras “EF Central do Brasil”, “Carnaval”.

Logo Oswald de Andrade lançaria novo movimento com o Manifesto Antropófago (1928).
Declara o escritor: -“Só a antropofagia nos une socialmente, economicamente , filosoficamente.” Antropofagia é canibalismo, homem que come carne humana. Na cultura se refere ao processo de trocas culturais entre sociedades, ato de alimentar-se da cultura do outro para formar a sua própria.”Só me interessa o que não é meu. Lei do Homem. Lei do antropófago”. Tarsila se inspira no tema e pinta a sua obra mais famosa, o Abaporu, que em língua indígena significa “Homem que come gente”. Esta obra se encontra em destaque no Museu Alba, em Buenos Aires.

Casou-se com Oswald de Andrade (1926) e foram para Paris onde realizou sua primeira exposição individual.

Tarsila expôs no Rio de Janeiro (1929) pela primeira vez. Com a crise internacional de 1928, a família Amaral perde grande parte de sua fortuna, o que atingiu o patrimônio da artista. Na mesma época, sofreu o término do casamento quando Oswald de Andrade que se apaixonou por Patrícia Galvão, ativista política. Com a sua separação, Tarsila se recolhe da vida social dedicando-se intensamente à sua arte.

Pela necessidade de recuperar suas finanças Tarsila vai trabalhar como Conservadora na Pinacoteca de São Paulo onde desenvolve importante trabalho de catalogação das obras do primeiro Museu de Arte de São Paulo.

Parte para a União Soviética (1931) com o novo marido Osório Cesar que a formou nos conceitos do pensamento político e social.

Retorna mais uma vez a Paris onde sem dinheiro trabalha como operária.

Ao voltar ao Brasil é declarada suspeita e presa. Já em liberdade (1933) inicia a série de pinturas com temática social, como a obra “2ª Classe” e “ os Operários”.

Separada de Osório casa-se com Luiz Martins, escritor, 20 anos mais jovem com quem vive até os anos 60.

Na década de 40 seu nome artístico cresce no país. É convidada para a 1ª e 2ª Bienal de São Paulo, tem sua primeira retrospectiva no MAM- Museu de Arte Moderna de São Paulo (1960) e participa da 32ª Bienal de Veneza (1964).

Separa-se de Luiz (1965) e, só e doente, é operada da coluna para aliviar suas fortes dores. Um erro médico a deixa paralítica aos 78 anos e para o resto de seus dias.
Sua única filha morre numa crise de diabetes. Tarsila conhece Chico Xavier, aproxima-se do Espiritismo e torna-se amiga e correspondente do Médium que a visitava com frequência.

Tarsila faleceu em São Paulo, capital em 17 de janeiro de 1973.

Sua vida foi levada ao cinema e TV em filme “Eternamente Pagu” (1987), nas mini-séries “Um só coração”(2004) e “JK” (2006). Foi motivo de peça teatral escrita por Maria Adelaide Amaral (2003) e transformada em livro (2004).

O nome “Amaral” foi dado em sua homenagem à cratera do Planeta Mercúrio (2008).

A obra completa de Tarsila do Amaral foi reunida em Catalogo Raisonée em 3 volumes, realização de BASE 7- Projetos Culturais com patrocínio da Petrobrás, Pinacoteca de São Paulo e Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Está explicado por que a grande artista brasileira merecia um post especial, dentro do tema MULHERES MODERNAS NO RIO?

Espero que tenham gostado de conhecê-la melhor e apreciem suas obras.

REFERÊNCIAS:
-CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO “Tarsila e mulheres modernas no Rio”
MAR- Rio de Janeiro 2015;
-MODERNIDADE-Arte Brasileira do século XX.
Catálogo da exposição no MASP- 1988- pg. 3 a 9.
-TARSILA DO AMARAL
Coleção grandes Pintores Brasileiros, Volume 3
Folha de São Paulo- Itaú Cultural
Maria Izabel Branco Ribeiro;
-ENTRE SÉCULOS- Coleção Gilberto Assis Chateaubriand.
– Fotos: Internet
Brasília, 6 de julho de 2015
REGINA MOTTA

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