Regina Motta

COLÓQUIO DAS ESTÁTUAS

Carlos Drummond de Andrade- 1958

Sobre o vale profundo, onde flui o rio Maranhão, sobre os campos de Congonhas, sobre a fita da estrada de ferro, na paz das minas exauridas, conversam entre si os profetas.

Aí onde os pôs a mão genial de Antônio Francisco, em perfeita comunhão com o adro, o santuário, a paisagem toda- Magníficos, terríveis, graves e ternos- eles falam de coisas do mundo que, na linguagem das Esculturas, se vão transformando em símbolos.

As barbas barrocas de uns, panejadas pela vento que corre os gerais, lembram serpentes vingativas, a se enovelarem; no rosto glabro de outros, a sabedoria ganha nova majestade; e os doze, em assembleia meditativa, robustos nãoobstante a fragilidade do saponito em que se moldaram e que os devotos vão cobiçosamente lanhando- os doze consideram o estado dos negócios do homem, a turbação crescente das almas, e reprovam, e advertem.

Uma brasa foi colada a meus lábios por um serafim – diz Isaías, ao pé da grade. E Jeremias, cavado de angústias, desola-se:

-Pois eu choro a derrota da Judéia, e a ruína de Jerusalém…

Esse choro, através dos séculos, vem escorrer nos dias de hoje, e não cessa nem mesmo quando Israel volta a reunir seus membros esparsos, pois só outra Jerusalém, a celeste, não se corrompe nem se arruína.

Na sua intemporalidade, são sempre atuais os profetas.

Em qualquer tempo, em qualquer situação da história, há que recolher-lhes a lição.

-Eu explico à Judéia o mal que trarão à terra a lagarta, o gafanhoto, o bruco e a alfôrra – é Joel quem fala. Ao passo que Habacuc, braço esquerdo levantado, investe contra os tiranos e os dissolutos:

-A ti Babilônia, te acuso, e a ti, ó tirano caldeu…

Numa visão apocalíptica, Ezequiel descreve “os quatro animais no meio das chamas e as horríveis rodas, e o trono etéreo”. Ozéias dá uma lição de doçura, mandando que se receba a mulher adúltera, e dela se hajam novos filhos. Mas Nahum, o pessimista, não crê na reconversão de valores caducos:
Toda a Assíria deve ser destruída- digo eu.

Contudo, há esperança, mesmo para os que forem atirados à jaula dos leões- conta Daniel (e em numerosas partes do mundo eles se disfarçam): esperança mesmo para os que, por três noites, habitaram o ventre de uma baleia- é a experiência de Jonas, a caminho de Nínive.

Assim confabulam os profetas, numa reunião fantástica, batida pelos ares de Minas.

Onde mais poderíamos conceber reunião igual, senão em terra mineira, que é o
paradoxo mesmo, tão mística que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita, e contudo mantém com o universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se, como nenhuma outra, com as dores do mundo, no desejo de interpretá-las e leni-las? Um povo que é pastoril e sábio, amante das virtudes simples, da misericórdia, da liberdade – um povo sempre contra os tiranos, e levando o sentimento do bom e do justo a uma espécie de loucura organizada, explosiva e contagiosa, como revelam suas revoluções liberais?

São mineiros esses profetas. Mineiros na patética e concentrada postura que os armou o mineiro Aleijadinho: mineiros na visão ampla da terra, seus males, guerras, crimes, tristezas e anelos; mineiros no julgar friamente e no curar com bálsamos; no pessimismo; na iluminação íntima; sim, mineiros de cento e cinquenta anos atrás e de agora, taciturnos, crepusculares, messiânicos e melancólicos.

Texto extraído do livro THE 12 PROPHETS OF ANTONIO FRANCISCO LISBOA, O ALEIJADINHO-Hans Mann- MEC- RJ .

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