Regina Motta

Candido Portinari

O primeiro contato que tive com a obra de PORTINARI foi na Capelinha Mayrink, no Rio de Janeiro. Eu era bem pequena, talvez sete ou oito anos, e havíamos nos mudado para a Tijuca. Num domingo, fomos passear na Floresta da Tijuca e entramos na pequena capela, no meio da mata. Lembro-me de que meu pai perguntava o que havia, pois fiquei calada, olhos grudados nas três imagens, enormes, levitando, que me emocionaram profundamente. Sai dali e quis saber tudo sobre aquela pessoa que teria feito aquilo. Na época, eu não sabia o que era um artista. Mas disse claramente que era o que eu queria fazer. Foi a minha primeira decisão de vida!!! Só rindo, não é? Querer ser um PORTINARI. Alguns anos depois, adolescente, pude conhecê-lo pessoalmente, em seu atelier. Confesso que não me lembro do que vi, mas fiquei deslumbrada. Decidi que faria o curso de pintura na Escola Nacional de Belas Artes/RJ.

Recentemente foi lançado um DVD, Portinari do Brasil, da série “Grandes Artistas”, um documentário dirigido por Rozane Braga. Com maestria, a diretora captou a personalidade do artista e de sua obra, baseando-se no diário e na correspondência do mestre com seus amigos e outros artistas brasileiros e europeus. São 52 minutos de pura emoção.

Candido Portinari nasceu em Brodowsky/SP, em 30 de dezembro 1903, filho de camponeses imigrantes da região florentina, chegados ao Brasil no final do Século XIX.

Teve uma infância pobre, usava roupas feitas de sacos de farinha, andava descalço, desenhava na terra e nas paredes. Foi uma criança alegre, brincalhona, que fabricava seus brinquedos, mas observadora com olhar profundo, do mundo que o cercava: roça produtiva, de terra roxa ou arenosa e lavradores com expressões sofridas. Autor de poemas na adolescência retratou a vida daquele povoado.

Em 1917, aos treze anos de idade, iniciou seus estudos no Rio de Janeiro, no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Nacional de Belas Artes. Em Paris, nos anos 30, usufruindo Prêmio de Viagem ao Exterior, conheceu as obras dos mais famosos artistas de todo mundo, porém nunca se filiou a escolas de pintura. Suas obras criticadas no início de sua carreira hoje são comparadas e vendidas com preços semelhantes às de Monet e Chagal.

Foi o pintor mais importante da vida social brasileira, da sua verdadeira face. Sua obra é o resultado de sua emoção, com cores e temas brasileiros, sua gente, seu trabalho, seu sofrimento, sua vida. Retratou várias formas do trabalho do povo brasileiro, as plantações de café, milho, algodão. Sua obra sobre os retirantes do nordeste são pungentes.

Utilizando colorido vibrante e luminoso, há uma curiosa particularidade quanto à cor azul utilizada nas suas obras. De tão específica, ficou conhecida como “Azul Portinari” e não é coincidência ser a cor de seus olhos!

A obra sacra de PORTINARI foi belíssima. Alem da Capela do Mayrink, pintou os impressionantes Murais da Igreja da Pampulha em Belo Horizonte/MG duramente criticados na época em que foram feitos. A crítica não entendeu a força e a verdade de suas figuras.

Como muralista merece um capítulo à parte. Foi o autor do painel do “Monumento Rodoviário” na Via Dutra RJ/SP, do painel do prédio do então Ministério de Educação no/RJ, de “Tiradentes”no Colégio de Cataguases/MG, da Biblioteca do Congresso em Washington/USA e, do mais famoso dentre eles, o Mural “Guerra e Paz”, que foi doado pelo Governo Brasileiro à sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York/USA. Este último, com 280 m² divididos em dois painéis, com cerca de 180 estudos, PORTINARI pintou-o durante quatro anos, com sacrifício de sua saúde. Inaugurada em 1957, não teve a presença de seu autor por este ser  membro do Partido Comunista. Porém, antes de ser entregue à ONU os painéis foram expostos no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde tive ocasião de apreciar e chorar de emoção. Recentemente a obra foi trazida ao Brasil para ser restaurada e mais uma vez o povo brasileiro teve oportunidade de conhecê-la. Permaneceu em exposição na Fundação Memorial da América Latina em São Paulo, por alguns meses, até abril de 2012.

Sua obra foi intensa e extensa, cerca de 5.600 obras assinadas, fora as que não puderam ainda ser autenticadas, e são muitas. Encontram-se nos Museus Nacionais e Internacionais, como no Museu de Arte de São Paulo/MASP, no Museu Nacional de Belas Artes/MNBA, no Museu de Arte Moderna de Nova York/MoMa, na sede da Organização das Nações Unidas.

Hoje o acervo PORTINARI está técnica e rigorosamente catalogado pela FUNDAÇÃO PORTINARI, no Rio de Janeiro, dirigida por seu filho João Candido Portinari que não mede esforços para divulgar e preservar a memória de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos.

PORTINARI morreu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1962, aos 58 anos, vítima de sua própria arte, intoxicado pelas tintas que destruíram sua saúde.

O mundo perdeu um grande mestre da pintura do século XX.

Candido Portinari(1903/1962)

Uma opinião para “Candido Portinari”

  1. Cléa Sá
    Cléa Sá
    20/11/2012 at 17:07 #

    Bela escolha de artista. Pelo seu texto, por sinal muito bonito, percebe-se o seu grande amor por Portinari. Compartilho.
    Abraços
    Cléa