Regina Motta

BARROCO MINEIRO – 2ª parte.


O melhor e mais completo exemplo do Barroco Mineiro encontra-se concentrada em Ouro Preto, especialmente na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis e em Congonhas do Campo, no Conjunto do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos e Passos da Via Sacra.


Não por coincidência são também os mais representativos do maior artista do Barroco Mineiro- Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Nascido em Ouro Preto por volta de 1738, filho do arquiteto português Manoel Francisco Lisboa e de uma de suas escravas negras, foi criado junto ao pai.
Ao redor de sua vida surgiram inúmeras lendas e fantasias, mas pouco se pode afirmar apesar de biografias existentes. Sua enorme, pungente, expressiva, porém irregular criação sugere a participação de outros artistas, até mesmo de seus escravos ou de seu pai.

Supõe-se que sua iniciação artística tenha sido no atelier do seu pai, de seu tio Antônio Francisco Pombal e João Gomes Batista, desenhista talentoso com quem Aleijadinho trabalhou.

A arte de Aleijadinho, artista que nunca saiu do país e talvez tenha visitado o Rio de Janeiro, desenvolve temas religiosos. Inspirada pelo Rococó alemão, ele a adaptou magistralmente para as condições locais.


Tem-se notícia de sua incrível produção de inigualável beleza, tanto na escultura em pedra sabão, técnica criada por ele, ou em madeira policromada, como nos entalhes decorativos, ornamentos de frontais e até mesmo no projeto de templos.

O carinhoso apelido foi decorrente de uma doença nunca identificada, supostamente lepra ou sífilis ou desconhecida devido à sua ascendência africana que, aos poucos, foi-lhe roubando os dedos, parte de suas mãos e dos pés. Tinha somente 40 anos. A partir deste doloroso fato o artista mudou seu temperamento. De comunicativo, alegre e despreocupado tornou-se taciturno e recluso. Passou a trabalhar sob uma tenda que o escondia da vista do público e suas mãos e pés aos poucos foram sendo enfaixados e neles eram atados os instrumentos para suas esculturas, o que não o impediu de trabalhar intensamente, sendo uma fase das mais produtivas do artista.

Foi nessa situação, ajudado por seus escravos Maurício que tratava de suas mãos e as enfaixava, Januário que o carregava e conduzia sua montaria e Agostinho que o ajudava nos andaimes e escadas, que trabalhou em Congonhas. No fim da vida era locomovido sobre uma prancha com rodas.

Na igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, ele participou do estudo do projeto, dos ornamentos internos, dos retábulos, do altar mor, do frontão, com equilíbrio dos volumes e dos espaços. Teve como parceiro o mestre Manoel da Costa Athayde que, numa sincronia perfeita com o escultor, pintou o teto em perspectiva ilusório de grande beleza.

Congonhas do Campo abriga uma das maiores coleções da arte sacra do Ocidente (1800/1804). O conjunto do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos é composto pelo templo projetado e ornamentado por Aleijadinho, por doze estátuas de grandes dimensões em pedra sabão dos e pelos Passos da Paixão de Cristo.

As doze esculturas do Santuário nos introduzem, de modo quase familiar, ao adro do templo. Em primeiro plano, no início da escadaria estão os quatro Profetas maiores Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Em seguida, subindo ao templo os oito demais profetas. A distribuição das esculturas inspirou ao poeta Carlos Drummond de Andrade uma crônica, “O colóquio dos Profetas” (1958) que está no meu próximo post.

Próximos ao templo estão os Passos da Paixão de Cristo. São 64 esculturas em madeira policromada, em tamanho natural, dolorosamente expressivas (1796/1799) divididas em sete blocos, em pequenas capelas.

Outras obras do artista estão em São João Del Rei, Mariana e Sabará, pequenas cidades da região das minas e em museus de arte sacra no Brasil e no exterior.

Antônio Francisco Lisboa morreu em Ouro Preto, por volta dos 70 anos em condição de pobreza, abandonado e esquecido pelos seus conterrâneos. Mulato, bastardo e doente não conheceu a fama em vida nem foi reconhecido pela sociedade da época.

REFERÊNCIAS:
-BARROCO MINEIRO- Fundação Clovis Salgado-Belo Horizonte, MG
THE 12 PROPHETS of ANTONIO FRANCISCO LISBOA- Hans Mann- 1958
COLEÇÃO IMAGENS DO BRASIL- Ministério de Educação e Cultura- RJ
Fotos – Barroco Mineiro
Internet

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