Cléa Sá

As boas coisas da vida

 

. Aqueles momentos que antecedem o começo de uma peça de teatro: as pessoas chegando, o teatro se enchendo, o burburinho, o primeiro sinal de luz, ou de som, o segundo, a expectativa, a peça será boa, o terceiro sinal, vai começar. Abre o pano. Ou entram os artistas. Amo.

 

.Quando estou dirigindo, parar em frente a uma passagem  de pedestre e esperar calmamente as pessoas atravessarem até subir no meio fio do outro lado da rua. Sei que não faço nada além da minha obrigação, mas me sinto altamente civilizada.

 

. Chuva. Especialmente a primeira chuva forte que cai depois de um longo estío. O cheiro da terra molhada que se evola, o barulho das bátegas no telhado se a casa não tem forro, ou nas janelas, se apartamento, e depois, o som dos pingos constantes quando a força inicial se atenua e temos aquela chuvinha prolongada noite à dentro. Ai! é bom demais.

 

. Ler é talvez uma das melhores coisas da vida. E não só ler: andar por livrarias, por sebos, escolher um livro, descobrir um autor, arrumar livros, tirar poeira, organizar um fichário. Tudo são prazeres. E tenho outro, muito particular nesse quesito da leitura: reler. Tenho uns livros queridos que ano sim, ano não, releio. Jane Eyre, de Charlote Brönte, A cidade e as serras, de Eça de Queiros, Helena, de Machado de Assis, só pra citar alguns. É como reencontrar amigos queridos.

 

. Cinema é outra das coisas boas da vida. A gente lê que um diretor do qual se gosta (Almodavar, Tarantino, Ang Lee, Woody Allen, por exemplo) está fazendo um novo filme. Aí é esperar. Um belo dia, o filme entra em cartaz. E se vai ao cinema e o filme é bom. Ou então a gente revê na tevê um belo filme antigo, em preto e branco, talvez do Frank Capra ou do Howard Hawkes. Sem adjetivos.

 

. Jogar pôquer. Temos um grupinho de anos, que já perdeu alguns membros. Mas nós, os que restamos, continuamos a nos divertir. Algumas frases e ditos se repetem e continuam engraçados, e vez por outra surge uma nova frase, uma nova piada, e que só tem graça na hora. Seguimos as regras do pôquer clássico e algumas outras,  próprias da nossa tribo. É tudo de bom.

. Depois de um um banho de mar, comer peixe frito e tomar uma cerveja bem gelada. Mas tem que ser em São Luís, num daqueles barzinhos da praia. Que pode ser qualquer uma, Calhau, Olho d’Água ou Araçagi. O peixe também pode ser qualquer um, mas se for peixe-pedra é a glória.

. Mas o melhor mesmo são os amigos. É tão bom ter amigos que nem tenho palavras. Eles merecem mais do que poucas linhas. Uma crônica inteirinha, que ainda vou escrever um dia.

 

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