Cléa Sá

Viagem

Na estrada sinuosa e estreita, lá íamos nós, de São Luís para Pedreiras.

As árvores da ilha, encorpadas, cerradas, formam um verde só, e o perfume das frutas se evola e chega até nós, apesar da velocidade em que se vai, no caminhão. É um cheiro de sapoti, é cheiro de tamarindo, de juçara, cupuaçu, bacuri, tudo espalhado no ar e que nos acompanha até chegarmos à ponte.

Lá está sempre o homem, lanterna na mão se é noite, bandeira vermelha, se dia, para avisar da passagem do trem. Seria sempre o mesmo homem? Bem capaz. A gente não o via direito, embora o caminhão passasse devagar. O rosto de um amarelão doentio mal assomava por trás do chapéu de palha. O homem da bandeira ou da lanterna estava sempre lá, no Estreito de Mosquitos.

Passada a ponte, saídos da ilha, o ar clareava, não importando fosse noite ou dia. Eram os campos de Perizes, verdes e alagados campos, brancas garças:

“A garça vai avoando,
baixa aqui, baixa acolá,
em procura de amor firme
que nesta terra não há.”

Esta era a canção que os campos pediam, aprendida do meu pai, e que eu cantava com gosto, como também era pedido o “verde vento, verdes ramas” do Lorca amado.

Viajar de São Luís para Pedreiras era tudo o que eu queria. Não viajar agora, mas viajar de novo, naquele tempo, com a alegria de voltar para casa.

Estamos em Perizes. Saímos da ilha e daqui a mais algumas horas estaremos em casa. Minha avó terá preparado a mesa, a grande mesa da sala de jantar estará com uma toalha branca adamascada e terá bolo de macaxeira, bolinhos de polvilho chamados “cacetes” e café e leite para se tomar enquanto se quer contar tudo o que aconteceu na viagem, resumir todo o semestre em frases rápidas, e todos querem fazer o mesmo. Falamos todos ao mesmo tempo, mas nos entendemos. O petromax está aceso que a luz elétrica já foi embora, são mais de onze horas da noite. Meu pai se irrita com tanto barulho, fica nos mandando tomar banho e ele tem razão, estamos cobertos de poeira vermelha que a estrada ainda não foi asfaltada, mas ninguém quer sair e deixar a conversa, é uma pena sair nem que seja por um minuto quanto mais para tomar banho, mas é o jeito. Do banheiro, ouve-se o barulho das conversas, uma risada estoura, sossegamos, estamos em casa, finalmente.

Mas, ainda não, ainda estamos atravessamos Perizes, garças brancas mergulham em verdes campos alagados, verdes ventos trazem o cheiro da água que se mistura ao cheiro que vem do corpo de seu Titico e que é um cheiro bom, uma mistura de suor, de graxa e de gasolina. É bom cheiro de homem, e eu, que ainda não conheço homem, penso que deve ser bom dormir com seu Titico, fecho os olhos, finjo que durmo e vou encostando, como sem querer, a cabeça naquele ombro próximo; sem abrir os olhos, percebo que ele fica quieto, não quer se mexer temendo me acordar, parece que dirige o caminhão de forma mais macia, quem sabe está se desviando dos buracos da estrada para evitar solavancos. E é tão bom ficar com a cabeça encostada naquele ombro, deve ser bom ter um homem, logo que eu fique um pouco mais velha vou querer um homem pra mim, um assim igual a seu Titico, se possível com o mesmo cheiro de graxa, suor e gasolina e, longe, um restinho de cheiro de sabonete Palmolive.

A voz de tia Lena, que está ao meu lado, me “acorda” dizendo que estou caindo por cima de seu Titico e desse jeito ele não pode dirigir. Finjo que estou acordando, peço desculpas. Agora estamos pertinho do Pedro Rocha, não dá mais para fingir que durmo, além do mais tia Lena está atenta, não que lhe tenha passado pela cabeça o meu fingimento que ela não tem malícia, ela se preocupa realmente que eu atrapalhe a direção do carro, medrosa que é.

Mas estamos no Pedro Rocha e se vai parar e comer carne de sol assada na brasa; é tarde, não chegaremos a tempo para jantar e ninguém resistiria mesmo ao cheiro daquela carne.

Fazendas, pastos e porteiras se sucedem. As vacas estão por ali, mastigando com aquele ar pacato que só as vacas têm. É já o lusco-fusco do entardecer, depois surgem as estrelas e as primeiras casas de Miranda. Não gosto de parar aqui quando estou com seu Titico, só quando a viagem é no ônibus do Monteiro. Mas seu Titico não abre mão: tem três moças bonitas e a cerveja servida por elas parece que é mais gostosa, é o que ele diz.

E lá vamos nós. Agora cochilei de verdade, não sei se caí ou não no ombro de seu Titico, mas isso não importa mais, pois acordo com as luzes de Piritoró e o coração começa a bater mais forte. Pedreiras é bem ali e é bem ali a casa. E meu pai está lá, a minha mãe está lá, e os meus irmãos, a minha avó, a mesa posta.

Sentada na ponta do banco, a respiração suspensa, acompanho cada volta da estrada. Este casebre eu conheço, aqui está o Insono, magro riacho; e vem o Morro dos Urubus, o Anjo da Guarda- sítio do Monsenhor- é este por onde passamos agora. O coração bate mais e mais forte, já vejo o Posto Fiscal. É o Engenho, sim senhor. Olho as primeiras casas, tento ver pessoas conhecidas, mas é tarde, não tem mais ninguém na rua. E é já a pracinha, a Igreja Matriz, as luzes da casa. Chegamos.

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