Cléa Sá

Uma mulher passeia pela rua

E lá vai a mulher andando pela rua. Não vai saltitante que isso não pegaria bem a uma velha senhora, nem ela, mesmo que quisesse, conseguiria realizar tal proeza. Mas vai com o passo firme e seguro, embora vagaroso. Atribua-se a vagarosidade não à fraqueza das pernas, mas ao dia bonito, é dia de céu azul e sem nuvens, e os flamboyants da cidade estão floridos, explodem em cores amarelas, roxas, vermelhas, azuis.

Está um bom dia para caminhar, pensa a velha senhora, enquanto se dá conta das flores, do céu azul, dos passarinhos e do vento que lhe acaricia o rosto.

A mulher ama e esse último amor que vive faz com que sinta um tipo novo de energia, um aumento de coragem, a volta ao gosto antigo por aventuras, e como as aventuras que lhe são permitidas agora são poucas, embarca nessa que pode, e que é andar pelas calçadas esburacadas sem olhar muito para o chão, só o suficiente para impedir a queda que lhe seria fatal. Pois a velha senhora tem muito medo de cair, é o que constatamos. Desde menina ela escuta que velho só morre de três quês, queda, qaganeira e qatarro, assim dizia sua avó, e as estatísticas estão aí comprovando o velho dito. Lê sobre a morte de uma pessoa ilustre e vê que a causa foi pneumonia, de outra se diz que foi parada cardíaca ao fazer uma cirurgia para consertar um fêmur, e por aí segue o noticiário. Gripe, queda, coração. Ás vezes câncer, mas que pensamento mais sem graça esse que lhe vem à mente. Não, nada de pensar em morte, causas de morte, doenças e os que tais em uma hora dessas. A hora é de aproveitar a manhã de sol e os barquinhos que vão pela e vem pela Guanabara. Não, ela não delira, ela sabe bem que a baía da Guanabara está longe, lá no Rio de Janeiro, e ela está aqui com os pés plantados e bem plantados no cerrado. É que se lembrou dos tempos de jovem e da bossa nova e suas músicas de barquinhos indo e vindo. Belo tempo aquele: aquele Brasil do início dos anos 60, irradiando energia, só se ouvia falar de crescer cinquenta anos em cinco, e de bossa nova, e de cinema novo. Deus e o diabo andavam pelo sertão, mas Corisco não se entregava não, que Corisco, como o Brasil, não era de se entregar, isso não. Estavam aí a palma de ouro de Cannes para o Pagador de promessas e a as copas do mundo que vencemos, ninguém dava bola para as ameaças do FMI, quem queria saber do FMI com o Brasil tão jovem e tão bonito? Esse tempo está longe, mas foi bom os ter vivido, não pode se esquecer disso quando bater o desânimo é o que reafirma para si mesma, enquanto caminha pelas calçadas esburacadas.

A mulher pensa que ama, mas não tem certeza. A verdade é que as certezas já não existem mais, quanto mais vive mais dúvidas tem. Muitas crenças foram abandonadas, grandes desejos, satisfeitos ou não, ficaram para trás e agora só pequenos desejos, pequeninos mesmos, e desejos possíveis de serem realizados, habitam seu coração e mente. Como desejar o fim da seca e que logo venham as chuvas, que seja bom o almoço de sábado, que este livro que está começando a ler seja mesmo tudo o que a crítica diz, que o George Martin não demore muito a escrever o final da Guerra dos Tronos. Para o Brasil, em tempos de eleições e de mudanças, tem também desejos modestos. Ela sabe que aquela história de Brasil grande foi um engodo dos anos da ditadura e nele não embarcou e não deseja outro engodo semelhante. O que deseja para o Brasil são passos pequenos mas seguros, como procurar não atentar contra a natureza, ter diversidade na escolha das fontes de energia e que haja respeito ao direito do contraditório, e seu sonho maior, a criação de um estado para os índios, um estado que eles possam chamar de seu. Ela sempre se lembra daquele índio que na carroceria de um caminhão em Bye, bye, Brasil, filme do Cacá Diegues, pergunta para o jovem retirante, “como vai o presidente do Brasil?” Sim, porque para os índios existe o Brasil e existe a terra deles, as muitas nações deles e é isso que precisa ser ouvido e esse desejo é daqueles que dificilmente será atendido, não se ouve nenhuma voz tratando desse assunto, índio não tem peso e não dá voto, mas ela é que não vai descartar esse desejo que vem de longe.

A velha senhora ama e vê como é diferente o amor nesta quadra da existência. Bem que fica bonito escrever “nesta quadra da existência”, faz lembrar poesias antigas como as de Olegário Mariano

Envelheci três anos em três dias!
Tenho a alma a transbordar!
O sofrimento fez minhas melhores alegrias
Folhas que leva como faz o vento…

E por em falar em sofrimento a mulher descobre que sofre menos agora, mal consegue se lembrar da última vez que chorou, chorou de verdade, lágrimas caindo dos olhos, soluços, coisas assim. Não que tenha ficado com o coração duro, pensa que não é isso. É que as fontes das lágrimas já secaram, avalia. Quando muito sente os olhos umedecidos, como ao ler da avó da praça de Maio que encontra o neto depois de 36 anos de procura, ou quando soube da morte de um jovem, filho de um amigo ainda jovem, que não merecia tal dor.

Pensar em merecimento, em dor ou em justiça não é apropriado para uma manhã em que se está caminhando ao sol. É tema escabroso, de difícil senão impossível compreensão. Deixemos isso de lado e pensemos no amor que se vive, o último com certeza, leve pois sem amarras e sem desejos de posse ou de reciprocidade – nem a pessoa amada sabe que é amada, vivido mais na lembrança e na imaginação que em atos, mas que tem o sabor especial de ser imerecido, de ser inesperado. Lembrando-se de um filme visto muitos anos atrás, a mulher pensa uns versos e os escreve sem caneta ou papel

“Não só os brutos,
os velhos também amam”

e descobre extasiada que quase conseguiu fazer um haicai

10 Responses para “Uma mulher passeia pela rua”

  1. josenita
    08/08/2014 at 14:23 #

    Cléa,

    que velha sábia, que texto bem escrito, ..

    Bj.,Josenita.

    • Cléa Sá
      Clea
      08/08/2014 at 16:43 #

      Josenita

      Gostei do sábia, aguento bem o velha. Bjs
      Cléa Sá

  2. odette maciel
    08/08/2014 at 13:09 #

    Gostei, gostei, gostei. Historinha parecida com algumas que conheço contada no seu estilo tão peculiar. Odette

    • Cléa Sá
      Clea
      08/08/2014 at 16:48 #

      Grata, Odette, Muito bom ver que você gostou. Bjs.
      Cléa

  3. vicente sá
    08/08/2014 at 12:17 #

    Como escreve bem essa moça. Vou até dar uma caminhada no final desta manhã de sexta só por conta desta crônica.

    • Cléa Sá
      Clea
      08/08/2014 at 16:46 #

      Que tal uma crônica sobre a sua caminhada? Essa aqui, sem modéstia nenhuma, ficaria muito para trás. É uma sugestão: aceite.
      Bjs
      Cléa

  4. Regina Motta
    Regina Motta
    06/08/2014 at 21:31 #

    Completo e com um lindo fecho!
    Beijos, Regina

    • Cléa Sá
      Clea
      07/08/2014 at 16:32 #

      Obrigada, Regina. Bjs

      • Inô
        08/08/2014 at 12:13 #

        Divagações, como pensamos quando caminhamos! Difícil é relatar, mas você conseguiu. Também gostei do fecho. Beijos,Inô

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