Cléa Sá

AS TRÊS MOÇAS DE MIRANDA

Toda vez que se fala em moça bonita, me lembro das moças de Miranda. Eram três. Belas moças, sim senhor. Por elas muita gente se perdeu e perdidas foram elas, que beleza demais não serve pra moça pobre não.

Da mais velha muito se disse, muito se falou. Por ela estudante perdia prova, chofer de caminhão perdia frete, parado, embevecido, sem poder seguir em frente. Era de nome Lindalva, essa mais velha. E era igualzinha ao nome, linda e branca. Uns olhos azuis derramados, uns olhos de água. Dava vontade de beber daqueles olhos, de banhar e afundar naquelas águas.

A do meio, Leonice, já era morena. Um moreno carregado, olhos muito pretos e acesos, que olhavam e não olhavam, de tão depressa que olhavam. Os homens ficavam tontos querendo saber se tinham sido olhados ou não e nessa procura se esqueciam da vida. Ou então queriam descobrir que mistério haveria na fundura daqueles olhos de poço sem fundo.

A mais novinha, Leonora, ficava entre as duas na cor, nem loura nem morena, mas não perdia em formosura, se é que não ganhava. Essa então endoidecia tanto homem como mulher, pois dela vinha uma meiguice que tocava o coração: dos homens, querendo ela pra mulher, querendo tomar conta pra sempre; das mulheres, querendo ser amiga, mãe, irmã, conforme a idade que tivessem.

Ai! As três moças de Miranda, filhas de Leôncio e Leontina, donos do Bar e Restaurante Pousado Alegre, numa beira de estrada. Bonitas assim nunca se viu.

Aqui, vou até reproduzir uns versos feitos pelo estudante Valdemar de Tal, não digo o nome todo porque ele agora é doutor em Direito, professor de Faculdade, segundo soube, e pode não gostar de se ver citado como poeta de moça de beira de estrada. Os versos não são lá essas coisas. Guardei na memória porque me lembram uma noite memorável, feitos que foram numa mesa do dito Bar e Restaurante, quando o ônibus do Monteiro deu o prego para alegria da rapaziada e desgosto das moças. As moças se entristeciam da beleza daquelas três e ciumavam dos noivos ou namorados. Nessa noite de que falo uma moça até chorou muito cismando da Lindalva, pobre moça essa que chorou, triste vida teve ela. Mas essa é outra história, convém não misturar.

Vocês me desculpem, eu sou ruim pra contar história. Tenho muito caso na cabeça, no meio de um surge outro, dá vontade de seguir na nova direção e esqueço o começado. Mas com paciência e tempo, coisa que agora não nos falta, a gente chega lá.

Voltando àquela noite, uma farra como poucas. Mas eu falava dos versos. Eram assim:

Lindava, flor de ternura,
Moças de olhos de mar,
Nos teus olhos, quem me dera,
Quem me dera me afogar.

Leonice, o que eu adoro
É tua cor de sapoti.
Já não como, já não durmo,
Só vivo pensando em ti.

Ai, Leonora menina,
Menina do meu pecado,
O que foi que tu fizeste?
Eu estou enfeitiçado.

Como esse, que fazia versos para as três, era quase todo mundo. O sujeito parava, descia do carro, ia entrando restaurante adentro e dava de cara com a Lindalva. A beleza da moça estonteava quem já vinha tonto de tanta estrada. Nem bem se recompunha, surgia a Leonice, vindo da cozinha, travessas de comida nas mãos, passava pelo dito cujo olhando como quem não olha. O cara estremecia nas bases. Aí aparecia a Leonora, vindo, digamos, lá de fora, com o seu ar de anjo. O sujeito se perdia, ficava apaixonado pelas três.

Dessas moças, por esse tempo, saiu muita história. No fim, já não se sabia o que era verdade, o que era invenção.

A mim mesmo o que me admirava mais não eram os casos acontecidos ou não, que homem sempre fez besteira por causa de mulher e vice-versa, da mesma forma. O que me admirava mesmo é como aquelas moças tinham saído bonitas daquele jeito, escapando de serem magrelas, ou marcadas de feridas pelas pernas, ou fracas do peito. Não devem de ter tido dordolhos ou tracoma naqueles olhos.

Por aquelas minhas bandas, ainda hoje, não é costume nem passa pela cabeça de ninguém esse negócio de vacinar filho, dar vitamina. Quanto mais naqueles tempos. Cedo, o menino ou a menina começa é a trabalhar no que precisa, come, quando come, o que aparece. Escola, então, que é bom, só pros ricos, só pros de dinheiro. Aquelas escaparam de tudo isso, menos da ignorância, que aí também era pedir demais a Deus. Acho que mal-mal assinavam o nome. Daí, era fácil prever o que ia acontecer a elas. Mas já vou eu me adiantando.

O Leôncio, o pai, fazia um bom dinheiro. Tinha comprado aquele ponto sem muita esperança, que ele era meio azarado em matéria de negócio. Só que agora contava com um capital extra, a beleza das filhas. E era um movimento sem fim, um nunca acabar de servir almoço, janta, cerveja, arranjar rede para os pernoites. E ele, atrás do caixa, só via o dinheiro que entrava. A mãe, na cozinha, a cozinhar toda vida. E as filhas por ali, no meio dos homens, incentivando, negaceando, animando, que a vaidade já tinha subido à cabeça delas.

Duma feita, o Padre Felinto, padre por sinal bastante levado da breca – largou até a batina depois -, foi lá em Miranda dar extrema-unção para um infeliz que estava nas últimas. Pois o pobre homem morreu sem nenhum socorro espiritual porque o danado do padre encostou no bar para tomar uma água mineral e quem disse que saiu? Que água mineral foi essa, o padre passou-se para as bramas e tanto bebia delas como dos olhos de Lindalva. Saiu de lá carregado pelo sacristão, e isso porque o cujo não era chegado à mulher, segundo diziam. Esse caso me foi contado como verdadeiro, eu não vi. E mais. O caso chegou aos ouvidos do Bispo, o padre levou uma bela descompostura, se desgostou, arranjou um rabicho com a Mundinha, filha do finado Clemente, moça feia e sonsa tava ali. Mas essa também já é outra história.

Triste foi quando o menino de Dona Dalva perdeu o vestibular para Medicina. Esse menino, falo menino mas era rapaz feito, se embeiçou pela mais nova. A mãe, uma viúva que não largava a máquina de costura, aguentava esse filho nos estudos só Deus sabe como. Pois o rapaz chegou lá e não sei o que lhe deu. Podia ter ido a São Luís, feito as provas e voltado. Não. Foi ficando, ficando, perdeu a data. Foi um escândalo. Botaram a culpa nas moças. Elas, que já não eram bem vistas, depois dessa, ficaram odiadas por tudo que é mãe de família.

Agora triste mesmo foi a morte do Joca Sampaio.

Esse Joca, uma moça de rapaz, bom, caladão, se apaixonou de verdade pela do meio, a Leonice. Paixão-paixão. Queria casar, levar ela dali. Se ela também queria, isso não sei. No dia fatídico, o Joca tava lá, o caminhão carregado de bananas encostado numa sombra só faltava falar pedindo para ir embora. E ele lá, parado, olhando a moça. Deixa que um caixeiro-viajante se achou animado pelo olhar da Leonice ou pelas muitas cervejas que tinha bebido e puxou a moça pela cintura. Não foi mais do que isso, mas o Joca não aguentou. Partiu pra cima do outro, peixeira na mão, querendo matar. O homem ficou bom da bebedeira na hora, Correu para o alpendre, um avarandado grande, pedindo calma, que é isso homem, mas quando se viu sem jeito puxou do revólver e deu dois tiros à queima-roupa. O Joca morreu na hora. Essa ninguém me contou, eu vi. Não se pôde fazer nada. O viajante ficou livre, foi legítima defesa, provado e bem provado.

Daí para a frente, parece que desgraça puxa desgraça, começou a derrocada.

Não demorou a Lindalva fugiu com um homem casado que largou a mulher com seis filhos e, ainda por cima, deu um desfalque na Coletoria. Sumiram, dizem que pros lados de Mato Grosso.

A Leonice, murcha e triste depois da morte do Joca, aceitou casar com um rapaz humilde, lavrador nas margens do Mearim. O pai, ainda abalado pelos últimos sucessos, levantou um pouco a cabeça, fez o casamento. Coitado. Dois dias chegava ela de volta. O rapaz veio devolver, não era mais moça.

Foi demais para o velho Leôncio, acabado de tanto desgosto. Vendeu o ponto perdendo dinheiro e foi se esconder nos matos, tocar roça. Da Leonice não quis mais saber. Ela perdida estava, perdida ficou de vez. Soube, mais tarde, que era puta em Belém.

Pra vocês não dizerem que só conto história triste, a terceira acabou bem. Casou com um rapaz de Pedreiras, comerciante, era moça-donzela, e vive com ele até hoje, cheia de filhos. A única tristeza é que enfeiou: engordou demais e perdeu os dentes. Mas isto tem conserto. A qualquer hora o marido manda botar uma dentadura e ela pode emagrecer. É só querer.

16 Responses para “AS TRÊS MOÇAS DE MIRANDA”

  1. Ary Sá Filho
    12/06/2015 at 01:25 #

    Dá saudade de Pedreiras, essa história contada assim, como se fosse na roda da fogueira!

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      13/06/2015 at 12:04 #

      Obrigada, Arysinho. É inspirada mesmo em Pedreiras. Um abraço Cléa

  2. Dina Brandão
    11/06/2015 at 20:49 #

    Cléa! Hoje que eu consegui ler. Parabéns! gosto muito de tuas estórias,. Já estava aqui imaginando as cenas do filme. Um ótimo argumento para um filme. .Adoro!!! Beijos.
    Dina Brandão

  3. Maria Luiza
    01/06/2015 at 15:15 #

    Oi, Clea, tudo bem? Estou com saudades!!!
    Nao consegui abrir a sua cronica. Estou
    curiosa.Bjs.Marria Luiza.

  4. Zulene
    26/05/2015 at 22:05 #

    Sou fã de carteirinha das histórias que D. Cléa conta. São simplesmente lindas.

  5. Inês
    26/05/2015 at 18:57 #

    Que beleza! É uma Scherezade essa Cléa! Conta mais!

  6. Marcello Sá
    26/05/2015 at 00:57 #

    Essa Dona Cléa tem é muito caso na cabeça e, ao contrário do que se acha o narrador, conta história bem que é uma beleza! Queremos mais e logo!

  7. maria eugenia
    25/05/2015 at 19:58 #

    Tia o que você escreve vale ouro, como escreve gostoso, somos privilegiados!!

  8. Vicente Sá
    25/05/2015 at 12:23 #

    Vai contar história bem assim lá em casa. Uma belezura. Gostei demais.
    Que bau bom dando, sô.

  9. Regina Motta
    Regina Motta
    23/05/2015 at 01:08 #

    Cléa, que delícia de contação de história!!! Tem gosto de quero mais. Você é única! Adorei!
    Beijos
    Regina

    • Cléa Sá
      Cléa Sá
      25/05/2015 at 12:05 #

      Obrigada, Regina! Vou procurar no baú pra ver se tem mais. Bjs
      Cléa