Cléa Sá

Por que escrever?

É preciso escrever. Necessariamente. No momento o assunto não é o mais importante e sim, escrever. Qualquer coisa. Como exercício.Como treino. Treinar a maneira de colocar as palavras, treinar a grafia, a acentuação, a colocação dos termos. E treinar a inspiração. Para ela também existe treino.
É preciso que não fique o pretenso escritor, o desejoso escritor, tolhido pela falta de inspiração. Escrever sobre o quê? Aliás, este quê já demonstra a necessidade de escrever: quando o “que” deve ser acentuado, quando não. É preciso estudar, é preciso ler para poder escrever. Mas, como dizia, ou melhor, escrevia, deve o desejoso escritor ficar à espera de inspiração? E se ela não vem? É preciso, também, estar atento ao desânimo, para os momentos em que não se sabe sobre o que escrever e vem o pensamento: será que tenho alguma coisa a dizer? É uma triste hora. Como saber se o que se tem para contar, se aquilo sobre o que se deseja escrever tem alguma importância? Interessará a alguém? Como decidir se vale ou não a pena escrever quando tanta coisa importante já foi escrita, tanto livro bom já foi lido? É impossível deixar de fazer comparações e constatar pura, simples e francamente, que jamais se escreverá nada que nem de longe se assemelhe às tantas coisas boas já escritas e lidas. Mas, se não escrever, o que resta?
É preciso escrever, apesar de tudo isso. É o desejo de um ofício, a preocupação de estar presente, a ação se concretizando ao bater dos dedos em teclas, passando pensamentos, vivências, mesmo que não originais.
Há vaidade nesse desejo de escrever para ser lida? Ou será necessidade de estabelecer comunicação com outras pessoas, sair do aprisionamento do ser, isolado em um corpo e cabeça pensante? Não será o pensamento da vaidade apenas mais uma das tentações para impedir o trabalho? Existem sempre muitas tentações, muitos empecilhos para que se tente alguma coisa, qualquer coisa. A trilha batida, a sobrevivência assegurada por um emprego, as horas certas passadas em um local determinado, o tempo preenchido por pequenas, certas e urgentes tarefas, a tranquilidade da rotina, não precisar criar, estabelecer marcos novos, e sim, ficar indefinidamente repetindo os mesmos gestos, as mesmas ações. Ah! Essa sim é a grande tentação.
Imagino um demônio a dizer: que queres mais? Tens casa para morar, subsistência assegurada, por que não sossegas? O que queres ao escrever? E por aí segue o demônio da acomodação, rico de argumentos.
Escrever não me trará vantagens de ordem material nem também realizará sonhos. Não salvarei o mundo com minhas magras palavras. A rotina apaziguadora é um calmante infeliz que não me serve. Quero trabalho e caminhos fechados para ser abertos.
Mas quero, sobretudo que alguém ao ler o que escrevi goste do ser desconhecido atrás daquelas palavras ou se reconheça em alguma página ou poema e diga consigo mesmo, estranho, também já me senti assim, certa vez tive esse sentimento.
Sim, é isso o que procuro. O reconhecimento da mesma condição humana, a identidade partilhada. E para isso é preciso que os dedos batam nas teclas traduzindo pensamentos, pequenos, comuns, mas pensamentos humanos. Assim, penso, serei não apenas e somente uma peça, uma pequena mola de uma engrenagem que não sei qual é, mas um ser humano entre seus iguais.

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