Cléa Sá

Os Kaixotes

Uma noite atrás, culminando um dia excepcionalmente feliz, vi os remanescentes da Tribo dos Kaixotes dançando rock em volta de uma mesa, como seus antepassados deviam dançar suas músicas primitivas em volta de fogueiras.

Já falei aqui das tribos de índios que existiam e ainda existem em Barra do Corda, no Maranhão: os Guajajaras e os Kanelas.  A tribo dos Kaixotes, como vocês não devem saber, também veio de lá. Eram muitos e excepcionalmente unidos. Alguns eram bonitos, outros nem tanto, mas a maioria tinha o corpo como um caixote largo, daí o nome da tribo. Tinham qualidades e defeitos, como todas as tribos têm, mas para seus membros isso não existia. Eles se achavam excepcionais e viviam a elogiar as qualidades uns dos outros. Gostavam de citar a frase “elogio em boca própria é vitupério”, portanto todos eram modestos com as próprias qualidades, mas não se preocupavam com isso, já que a admiração que uns tinham pelos outros os faziam sempre alvo de elogios. Isso e mais a constância da amizade entre eles lhes trazia um grave inconveniente: o ciúme das mulheres e maridos, que não conseguiam se incorporar à tribo. Assim, era bem alto o nível de separações e de novos casamentos entre eles. Claro que havia exceções: uns poucos permaneciam casados e uns pouquíssimos não voltavam a casar.

Contam os antigos, que os Kaixotes eram da mesma raiz da tribo dos Papa-Fogo, hoje extintos, embora não tivessem muita coisa em comum. Os Papa-Fogo eram indolentes, bebedores de cachaça, viviam deitados em redes a contarem histórias uns para os outros. De preferência histórias engraçadas. Dizem que um falava para o outro: “diz graça, irmão, diz graça”. E riam, riam. E quando tinham fome, o que era comum, pois quase não trabalhavam, aí é que riam mesmo.

Dos Papa-Fogo, os Kaixotes têm o gosto pela bebida, não necessariamente cachaça, pelo riso e por contar histórias. São trabalhadores, no entanto. Podem passar a noite nas suas festas rituais e no dia seguinte estão trabalhando. Jamais se ouviu dizer que um Kaixote tivesse faltado ao trabalho por ter bebido demais.

Os Kaixotes, talvez por um defeito de fabricação, morrem cedo. Há uma única e excelente exceção. Assim, agora há poucos Kaixotes. E esses poucos, continuam bebendo, contando histórias e dançando. Há mais a dizer sobre essa estranha tribo, e voltarei a fazê-lo em outra ocasião. Aguardem!

 

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