Cléa Sá

O Poço da Solidão

Era uma vez…  uma velha fazenda chamada Solidão.

Na  Fazenda Solidão, morava uma família bonita_ pai, mãe e filhos. Os meninos estavam sempre fora porque estudavam na cidade. As meninas permaneciam na fazenda. Além da família, morava o Vaqueiro com o filho e a mulher e mais alguns empregados que se encarregavam de cuidar da lida diária, definida como plantar, tomar conta do gado e tirar leite das vacas de madrugadinha, quando o sol estava quase nascendo no horizonte.

Meis pais, amigos dos donos, eram sempre convidados para, nos fins de semana, viverem a paz da Solidão.

Desses dias, eu me lembro: a casa grande ficava mais no alto e de suas varandas podia-se ver, não só o curral, mas as plantações e as cancelas, portas abertas para receber os amigos e deixar o mundo entrar. Da varanda leste, era possível divisar bem longe a sede da fazenda   vizinha e, então, via-se uma casa cinza, sombria, que escondia um mistério sobre o  qual as pessoas grandes falavam, mas mudavam de assunto quando se aproximavam as crianças, o que fazia povoar suas imaginações de interrogações e fantasias.

Na Solidão, a grande sombra protetora das bricadeiras da meninada vinha do umbuzeriro, árvore que crescia isolada no meio do terreno. Do seu fruto, a dona da fazenda fazia umbuzada, mistura de umbú (cru ou cozido ) com leite e açucar que se oferecia aos visitantes, no meio da manhã, para esperar o almoço.

À sombra do umbuzeiro brincava-se de roda, pulava-se amarelinha desenhada no chão com gravetos, jogava-se bola ou peteca, pulava-se corda e vadiava-se outros folguedos inventados pelas meninas grandes. Até mesmo, algumas vezes, brincava-se de fazer “comidinha” para as bonecas.

Ainda sob a sombra do umbuzeiro, havia  outro programa excitante, que acontecia no finalzinho das tardes  e dele participavam igualmente as pessoas grandes: o vaqueiro fazia uma fogueira e assava milho verde.E, então, todos viam a noite chegar, tingindo o céu, primeiro de azul marinho, depois de azul bem mais escuro, mas bordado de estrelas. Se lua cheia, um clarão prateado cobria a Solidão.

Havia o poço …  As crianças esqueciam do mistério da casa do vizinho para se ocupar de outro mistério: o que cercava o poço sobre o qual as meninas grandes se encarregavam de incentivar a curiosodade.

A perpesctiva de visitá-lo no dia seguinte quase mantinha as meninas pequenas acordadas toda a noite. No dia previsto para a visita, levantavam cedo para tomar leite quente no curral e café gostoso na sala de jantar, com cuscuz, queijo feito na fazenda ( assado na chapa ), bolo e pãezinhos. Se época de S.João e S.Pedro, na mesa havia pamonha e canjica.

Depois do café saiam na direção do poço –  as meninas grandes, as meninas pequenas e o filho do vaqueiro ( que devia ter uns 10 ou 11 anos). Parecia  que o poço ficava a uns mil quilômetros de distância… e caminhava-se na sua direção, pensando no seu encantamento e ouvindo suas histórias.

As meninas grande contavam que ele surgiu em lugar árido, onde se acreditava, nunca brotaria fonte de água. Quando surgiu, os homens estavam cansados de tanta seca. Fazia muitos meses que não caia um pingo de chuva: as plantas não nasciam e o gado morria de sede. Um belo dia, sem explicação, o poço apareceu no meio de pedras arrumadinhas e cheio de água, clara e trasparente, nascida de uma fonte que, olhando bem, via-se borbulhar.

Só quem sabia o segredo do seu aparecimento era o menino do vaqueiro.  Dizia ele que os anjos do céu lhe contaram:

Nossa Senhora, mãe de Jesus,teve pena dos homens sofridos daquela região e fez um pedido ao seu Filho, como fizera nas bodas de Caná solicitando-lhe para que, numa festa de casamento,  transformasse água  em vinho. Desta vez, pediu um poço de água milagrosa, capaz de tornar a terra dos homens verde e também que nunca mais faltasse  água nas vasílias de todas as casas à volta daquele poços. Jesus fez o milagre.”

Imaginações borbulhando como as águas da fonte, em silêncio  e sob encantamento chegavam as meninas ao destino marcado – o poço. Passados alguns minutos,  toda a curiosodade voltava-se para o menino do vaqueiro a quem crivavam de perguntas. Ele ia respondendo  todas, olhos brilhando, sentindo-se o centro das atenções. Dizia que via e conversava com os anjos, todas as tardes, quando sozinho, ia lá – no poço – meditar. Então os anjos lhe contavam segredos: o do poço e mais outros.

Contaram-lhe, por exemplo,  que no quarto dia da criação Deus fez luzeiros e os colocou no céu a fim de iluminar a terra para que, quando no sétimo dia criasse o homem, o mundo não estivesse escuro para recebê-lo. Desses  luzeiros dois se destacavam por serem grandes, ou melhor, maiores.  Ao primeiro e  maior de todos, Deus deu a função de governar o dia;  o segundo, bem menor que este, devia governar a noite. Quando o homem ocupou a terra, lhe deu nomes: sol, lua e estrelas. Estes luzeiros pequeninos brilhavam toda a noite no céu, sozinhos ou em grupos.

Ao teminar suas descrições, o menino do vaqueiro ficava orgulhoso de sua sabedoria. E acrescentava mais um segredo recebido dos anjos: noite alta, sozinho e calado, olhando para o céu ele podia ouvir estrelas. Para isso precisava de silêncio, precisava de tristeza, precisava de fé …

Voltando à sede da Solidão, o  dia movimentado fazia as meninas saírem do encantamento. Mas, à noite, todas queriam olhar o céu, queriam silêncio, queriam acreditar e se possível ver, e, por que não? Principalmente queriam ouvir estrelas.

Odette Pessoa Maciel.

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