Cléa Sá

O menino que desenhava na Rádio

 
Esta é a história do menino que desenha na Rádio. Aquele famoso. Mas é bem antes dele se tornar conhecido, quando ele ainda era pobre e solitário como eu. Vivíamos uma crise, o dinheiro era pouco, os trabalhos também.  Eram muitos os que viviam pelas ruas emprestando seu talento aos malandros e golpistas. Foi assim que eu e o garoto nos conhecemos.

Foi em outro tempo, outro mundo, eu não lembro mais tão bem.

Ele desenhava em um guardanapo e eu vestia um blazer emprestado que só me deixava ainda mais parecido com o morador de rua que eu era. Ele me viu escondendo um bolinho no bolso do blazer e sorriu triste como quem me perdoasse. Não liguei muito e continuei anotando coisa sem sentido em um bloco que um dos dois homens havia me entregado para que eu representasse algum tipo de intelectual no golpe. Lembro que tinha uma loura baixinha que se arrumava reclamando de ter que enganar outras pessoas e nos olhava pedindo desculpas.  Acho que o único que já não se arrependia de fingir era eu.

Por algum motivo o golpe foi abortado e nós mandados embora. Enquanto caminhávamos lado a lado, o garoto que desenhava no Rádio lamentou terem tomado de volta o blazer com os bolinhos. Eu tinha um último no bolso da calça e dei para ele que nada tinha comido. Subimos por uma espécie de quintal que nos levava à pequena e florida praça onde ficava o café no qual ele fazia pequenos serviços e ganhava a sua comida; perto passamos por uma moça parecida com a que estava conosco no golpe frustrado, agora ela estava mais feliz em suas roupas simples varrendo o jardim de uma casa.

Chegamos em frente ao café e uma garçonete de cabelos curtos e avental azul perguntou  ao garoto por que ele não havia aparecido para almoçar. Depois, ainda sorrindo, nos fez sentar em uma mesa de canto e trouxe um pequeno lanche para o pequeno. Antes que ela me perguntasse o que eu desejava o proprietário apareceu. Era um homem jovem e grande e a princípio pareceu zangado com o garoto que desenhava na Rádio. Falava sobre os números que o menino sempre escrevia para ele jogar num tipo de loteria. Desta vez o garoto havia desenhado números demais e ele não conseguira fazer as apostas. Mostrei a ele o papel que os golpistas haviam entregado ao garoto para justificar sua ausência no café. No alto do papel os números 8845 estavam carimbados. Sugeri ao proprietário do café que usasse estes números para sua aposta. Ele sorriu e vi que toda bronca era apenas uma brincadeira que eles sempre faziam. O dono do café apanhou o papel, agradeceu muito o palpite e saiu, antes mandou que a garçonete nos servisse por conta da casa.

Depois que ele se foi eu e o garoto que desenhava na Rádio ficamos conversando. Ele me disse que seus irmãos brigavam muito com ele, não o deixavam ler os livros que ele havia ganho e que estavam empilhados no sótão. Que ele podia se defender sozinho de seus irmãos, eu é que sempre o segurava e não o deixava brigar. Achei engraçado ele falar de mim como um amigo antigo. Quando a garçonete veio trazendo o licor que eu havia pedido, o garoto que desenhava na Rádio avisou que no dia seguinte iria me levar a casa dele e mostrar-me para seus irmãos e por isso chegaria mais tarde ao café.

Foi somente quando a garçonete me trouxe a segunda dose de licor e achegou-se por detrás, olhando por cima do meu ombro como você faz quando eu estou escrevendo, que eu percebi que era um sonho, que eu já estava com saudades e prestes a me despedir daquela vida e daquele garoto que nunca mais verei.

Brasília, junho de 2014.
Vicente Sá

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