Cléa Sá

DELZUÍTA

Os pés da menina afundam na grossa camada de areia e é com dificuldade que muda os passos. Tem canelas finas, a menina. E olhos fundos. E cabelos lisos. Magrinha, magrinha é a menina. Vem, trouxinha na mão, atrás da mãe.

Que cidade triste é essa? Duas horas da tarde e só um sol de rachar e o vento. Que balança as palmeiras e carrega areia de lá pra cá, daqui pra lá. Na rua, ninguém. E lá embaixo, correndo manso, o rio Santa Rosa.

I

A menina se chama Delzuíta e é viva como ela só. É ama do filho mais novo de seu Nonato. Esperta, cuida bem do menino, dá banho, faz mingau, troca fralda. Não sabe ler, mas sabe subir em árvore, descobrir ninho de passarinho, nadar no rio, sabe quando vai chover e sabe também contar histórias que aprendeu com a avó.

Quando Delzuíta tinha quase doze anos, a mãe lhe disse: – Amanhã vou te levar para a casa de seu Nonato. Te dei pra eles.

De manhãzinha, Delzuíta arrumou a trouxa. Uma muda de roupa.

No começo, teve medo, depois achou bom. Tinha café, almoço e janta. E o serviço era pouco, só olhar o menino.

De noite, quando o neném dormia, brincava na rua com as outras crianças: cantavam cantigas de roda, passavam anel, pulavam amarelinha.

Delzuíta ia fazer quinze anos quando a família de seu Nonato se mudou para outra cidade. Delzuíta queria ir junto. Eles não quiseram ou não puderam levar.

Aí, sem querer voltar pra roça, Delzuíta arranjou emprego no bar de seu Jeremias. Também era bom. Dormia num quartinho nos fundos e o serviço, embora mais pesado, era bom, e também tinha café, almoço e janta.

Por esse tempo, Delzuíta já sentia umas vontades. Assim, na noite em que seu Jeremias foi ao seu quartinho não botou dificuldades. Queria saber como era. Não gostou muito. A mão cabeluda de seu Jeremias fedia a alho. Deixou. Fazer o quê?

Quando o sangue não veio, Delzuíta viu que estava grávida, teve medo e chorou um pouquinho. Seu Jeremias lhe disse pra não se preocupar: – Lá em casa, mando eu, ninguém se mete com a minha vida. Fica quieta e vai trabalhando que eu cuido de tudo.

Delzuíta ficou quieta, trabalhava e a barriga crescia. Não se animava com o filho, não se animava com nada. Gostava de tomar café, do almoço e da janta, que ela mesma fazia.

As dores vieram fortes numa noite chuvosa. Seu Jeremias chamou a parteira. O menino não nascia e Delzuíta não tinha força. Ficava parada, não ajudava, via tudo longe, como em uma nuvem. Via o rio, as mariposas voando em volta do candeeiro, o neném, o rio…

Só Seu Jeremias acompanhou o enterro.

II

Quando Delzuíta tinha mais ou menos doze anos – não sabia ao certo sua idade pois não tinha registro e era uma entre muitos filhos-, foi lhe dito pela mãe: – Amanhã vou te levar para a casa de seu Nonato. Te dei pra eles. Faz tudo que eles mandarem, não pega nada de ninguém e não responde pros mais velhos.

Assim foi. Arrumou a muda de roupa numa trouxinha e foram andando pelo areal. Por dentro, um medo, um tremor.

Mas, quando chegou lá, gostou. O serviço era bom, tinha café, almoço e janta. E uma menina. Ficaram amigas. Quando a menina ia para a escola, Delzuíta ficava triste, de olho comprido na rua, uma vontade de ir para a escola também…

De noite, depois que o menino dormia, a menina ensinava Delzuíta a ler e escrever. A luz era de candeeiro e atraía as mariposas. Elas vinham voando, batiam na manga do candeeiro, morriam queimadas, grudavam no vidro. Era uma trabalheira limpar no dia seguinte. Inteligente, Delzuíta aprendia tudo e rápido e gostava. Sei gosto maior era pelas aulas de Geografia, as belezas dos mapas, Canadá, Brasil, Congo, cada país, uma cor.

Delzuíta estava pelos quinze anos quando a família se mudou. Antes, mandaram chamar a mãe de Delzuíta lá na roça para pedir para a levarem com eles. A mãe não deixou: – Dei ela só aqui pra perto, pra longe deixo ir não. A menina chorou, o neném chorou, Delzuíta chorou. Não teve jeito, voltou com a mãe para a roça.

Não demorou muito, arranjou marido, Joaquim dos Ramos. A mãe concordou com o casamento. Joaquim era dono do seu pedaço de terra e um homem bom.

Na gravidez, Delzuíta vivia satisfeita. Não trabalhava na roça e tinha café, almoço e janta. Só de noite, no escuro e silêncio, tinha assim como uma pena, uma saudade do neném, da menina. De manhã, aquilo passava.

Quando chegou a hora, Joaquim correu a chamar a mãe e a parteira que vieram depressa e ficaram ali ajudando. Água quente, chá, reza, coragem. Mas Delzuíta não tinha muita força e o menino estava atravessado. Ela ficava parada e via tudo longe, nublado: o rio, as mariposas, a menina, o neném, os mapas, o rio…

III

Delzuíta foi mandada para trabalhar na casa de seu Nonato com cerca de doze anos. Arrumou a trouxa com uma muda de roupa e foi. Por dentro um pouco de medo, mas muita vontade de ver como era a cidade.

Lá era bom. Ganhou roupa nova, escova de dente, um pente. Tinha café, almoço e janta e o serviço era leve, só olhar o neném.

Delzuíta gostava de tudo. Quase igual ao neném, gostava de leite Ninho grudando no céu da boca. Quando a família se mudou, levaram Delzuíta junto.

O tempo foi passando e Delzuíta enfeitava, botava corpo com a comida que comia, sabia já ler e escrever. Quando tinha uns quinze anos, estava bonita de dar gosto e foi aí que o filho de seu Nonato tirou a honra dela.

Foi um desespero na casa. Dona Nenzinha, mulher de seu Nonato, ficou louca do juízo e botou Delzuíta na rua. Toda a vizinhança com pena da mãe. – Não é que a gente trata bem, como filha, manda ensinar a ler, dar casa e comida e vem desonrar a nossa casa? Taí! Vê no que dá querer ajudar esse povinho.

Delzuíta foi parar na zona. Onde mais?

Lá aprendeu a cantar, beber cerveja, dançar bolero.

Uma noite, bêbada, cuspiu na cara do homem que estava com ela. Desfeiteado, ele a furou toda com a peixeira.

Delzuíta perdeu muito sangue e morreu logo. Antes de morrer ainda viu o rio, as mariposas, o neném, a menina, os mapas, o rio…

6 Responses para “DELZUÍTA”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    21/04/2015 at 12:44 #

    Ah! Cléa, táo comovente e táo Atual! Quantas Delzuitas tão proximas, tão abandonadas. Veja aqui perto em Cavalcante! Algum dia vai mudar? Mundo covarde!

  2. Marcello Sá
    20/04/2015 at 22:52 #

    Muito bonito, tocante mesmo,Cleita! Quisera pudéssemos ajudar a Delzuíta, dando-lhe educação, pré-natal e afastando-a da zona e dos homens cruéis. No seu belo conto não pudemos ajudá-la, quem sabe se na vida real podemos fazer alguma coisa pelas Delzuítas!

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      21/04/2015 at 12:52 #

      Marcello
      é sempre a nossa esperança. O conto é uma tentativa
      Abraços e obrigada
      Cléa

  3. vinicius
    20/04/2015 at 19:35 #

    nossa, Clea, que lindo, que forte, que triste. e são tantas as delzuitas dessa vida

    • Cléa Sá
      cleamsa@uol.com.br
      20/04/2015 at 21:59 #

      Obrigada, Vinicius. Para minha tristeza, conheci algumas nesta vida. Um abraço
      Cléa