Cléa Sá

De real e irreal

Moramos em muitos lugares na minha infância, cidadezinhas perdidas no interior do Maranhão. Nosso pai, funcionário público, frequentemente era transferido de uma coletoria para outra e lá íamos nós, outra cidade, outras pessoas, raízes arrancadas. Desse mundo, o que resta? Quase nada. O mundo em que vivíamos parece tão diferente deste de agora como se não se tivessem passado apenas trinta anos, mas séculos.

As tardes compridas se arrastavam lentamente. As manhãs eram sempre cheias de sol, as chuvas caíam de uma maneira mais forte que agora e os trovões soavam também muito mais altos. Era o começo, a novidade das coisas, dos fatos e também a ausência de padrões para comparação.

O tempo era muito esquisito. Manhã e tarde se confundiam se se dormia depois do almoço. Acordava-se confuso, não se sabia se aquele levantar era o da manhã ou da tarde, o ritmo em que se andava normalmente ficava perdido. Vinha daí um mau-humor, vinha um desgosto.

Tinha goiabeira no quintal, árvores altas, pés de jamelão deixavam cair suas  frutinhas tão roxas que pareciam pretas, rios largos, mergulhos profundos em águas cobertas de sombras, medo de arraia. Onde acontecia isso? Não sei mais. Os quintais se misturam. Não sei em qual quintal tinha goiabeira, rio passando perto, árvores altas das quais caíam frutinhas pretas. Os quintais agora estão todos juntos, um imenso quintal cheio de tudo.

De vez em quando, uma impressão desse tempo assoma. Tento pegá-la, foge. É um cheiro, ou é a cor do céu na tarde, ou folhas sendo molhadas pela água da chuva, gotejando. A rainha costurando pica o dedo na agulha, meu filho, diz ela, será alvo como este linho, rosado como este sangue e seu cabelo terá a cor do ébano. O filho da rainha se materializava com cabelos sem cor, pois não se sabia que cor teria o ébano.  Ébano, uma das belas palavras desse tempo. Existiu um jardim fechado com uma triste rainha desejosa de filho, vestida, hoje sei, como as damas da Idade Média, roupas largas, manto e um comprido toucado? É bem real essa rainha, vive na minha lembrança da mesma maneira que minha avó, João, o soldado Dário e tantas outras pessoas desse tempo.

O que é real? O que não é?

Alguns personagens de livros que li, ou de filmes que vi, são tão reais como pessoas com quem convivi proximamente. Ou até mais. Quantas e quantas vezes vejo Silas Marner vindo carregado de linho para fiar, disforme figura andando no lusco-fusco de um entardecer inglês; ou o meu pensamento volteando me leva para a biblioteca do Sr. Rochester, vejo o cachorro Pilot perto da lareira, escuto, com Edward e Jane, meus amigos queridos de tantos anos, os sons do vento vindo da charneca; e, assim, vem também o último dos Moicanos, Clarissa tomando banho e olhando o corpo adolescendo, Vasco, perturbado rapaz. Ai, quanta gente vem, quanta gente.

Agora, bem mais velha, parada com um novelo de lã no colo, sozinha, me pego pensando nos meus mortos, já tantos. O pensamento segue, vagueia, lembra os amigos que se perderam na distância, no tempo, e segue, traz esses outros amigos que amei e são tantos, saídos de outras cabeças, criados ou recriados, mas tão reais como aqueles amigos com quem andei de bicicleta nas ruas de Pedreiras ou com quem mergulhei nas águas do Santa Rosa.

 

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