Cléa Sá

Coisas bonitas

                    Alguém, sofrendo a maior dor do mundo, com voz sumida me pergunta: essa dor, ela passa algum dia? Sim, respondo com convicção. E ainda se pode ter alegria, você vai ver. Coisas boas e bonitas podem acontecer a qualquer momento. Não lembro especialmente de nenhuma agora, mas sei que podem. Por que não? Quando se é jovem ou se está apaixonado é mais fácil, não resta a menor dúvida. Mas, mesmo agora, ainda acontece. Há pouco, ouvi uma música do Djavan interpretada por uma cantora de jazz na televisão que me tirou o fôlego. Vê?

Sozinha, na meia idade ou já no começo da velhice, achar coisas bonitas é um pouco mais difícil. Mas deve-se ficar bem quieto, sem esperar muito. No silêncio da alma, uma voz, quem sabe, se fará ouvir. Ou então uma surpresa qualquer virá no vento, da lua ou dos confins da África. Quem sabe dos Andes. Ou se abre um livro e lá está uma bela página que fala de coisas pensadas por outra pessoa e que batem exatamente com coisas que você tem pensado e você fica feliz pela existência daquele companheiro de alma que você nunca verá.

O teu filho, esse não volta. A própria lembrança vai ficando vaga, imprecisa, você chega a ter saudade da dor que sentia agora que quase não dói mais. Você precisa, por vezes, olhar o retrato do filho para saber exatamente como ele era e a voz, ai! essa não dá para lembrar. Mas dá para lembrar o barulho das portas batendo, que ele não as fechava calmamente nunca, e alguns momentos raros chegam de repente. Na maior parte do tempo, porém, o que você lembra agora é de você mesma contando as histórias do seu filho.

Mas, coisas bonitas existem, sim. E podem acontecer a qualquer um. Só não me lembro de nenhuma, agora.

 

 

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