Cléa Sá

Cartografia de um Pau de Enchente

Thaís Maranhão 

Outro dia, um amigo me disse: – Me chamam de pau de enchente!

Naquele momento, preocupada com o próximo compromisso, apenas dei um sorriso.

Mas essa ideia ficou me intrigando.

Como seria a vida de um pau de enchente?

Geralmente, quando os conhecemos, eles já estão lá, no meio daquela água, ora seguindo o fluxo na direção da corrente, ora se agarrando em alguma margem, ora tomando uma direção diferente da correnteza.

Por onde esse pau de enchente haveria deslizado? o que poderia ter provocado ao se agarrar em algum lugar? teria se modificado? haveria como saber/escrever sobre o nascimento de um pau de enchente?

Com certeza, são questões de difícil resposta.

Ainda assim, a ideia sobre um possível devir pau de enchente continuava ocupando meu corpo.

Passei a andar a pé, ao invés de usar carro ou bicicleta. Andar a pé, quem sabe, aumentaria meu tempo para pensar.
 
Notei que, ao caminhar, a probabilidade de encontros aumentava consideravelmente.
Ao encontrar um conhecido estando de carro, no máximo consegue-se buzinar ou gritar ao longe – diga-se de passagem, com o risco de pessoas se assustarem, e, assim que fosse visto, já estarias há alguns metros de distancia. Quase o mesmo acontecia ao estar de bicicleta, no limite, consegue-se um aceno de mão, um sorriso ou uma mensagem de whatsup dizendo que te viu passando e que deverias passar a usar capacete.

Andar a pé já é diferente. A possibilidade de encontrar conhecidos no caminho e ter um dedo de prosa aumenta a depender dos compromissos de cada um. Esse dedo poderia virar uma mão, um braço, e até um corpo inteiro. Poder-se-ia inclusive mudar a direção da caminhada.

Comecei a me lembrar dos tempos de faculdade. Caminhar pelo “minhocão” no fim da ala sul para a ala norte era sentir-me como um pau de enchente. Muitas vezes não chegava à ala norte, e até perdia aula…

O mesmo acontecia-me ao frequentar festas ou viajar. Aliás, as melhores noites (e dias) aconteciam justamente quando o destino se modificava a depender do caminho que se tomava.

Comecei a me perguntar: seria eu também um pau de enchente? teria momentos pau de enchente? 

A alegria com o inesperado enchia essa pau de enchente de possibilidades de agarramento, perdas de pedaços, e ornamentações com folhas caídas nas águas.
Se pudesse, um dia, faria uma cartografia sobre um possível devir pau de enchente…Por enquanto, fico aqui…apenas com esses pensamentos.

2 Responses para “Cartografia de um Pau de Enchente”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    18/10/2014 at 23:45 #

    Bem-vinda Thaís! Bela crônica. Muito rica a família Maranhão!
    Beijos,
    Regina Motta

  2. Marcello Sá
    17/10/2014 at 16:14 #

    Parabéns pelo texto e pela estreia, querida Thaís. Gostei dessa imagem do pau de enchente. Ideia legal, texto atual e fluente, como um rio cheio de pau de enchentes…rsrsrs Beijos, Marcello Sá