Cléa Sá

Ali

Minha dor, eu já disse, é mais pesada que uma montanha.

Estão me tratando em um hospital de queimados do Kuait. Ontem me operaram pela primeira vez. Não sei como é. Tiraram a pele queimada? Substituíram por outra pele? Me anestesiaram e essa dor eu não senti. Mas não há anestesia para a dor da perda da minha mãe, para a dor da perda do meu irmãozinho que estava crescendo na barriga de minha mãe, para a dor da perda do meu pai.

Quero meus braços.

Quero minhas mãos.

Quero minha casa, meus amigos, meu futebol, minha grande família, minha escola, minha cidade de Bagdá.

Disseram que foi um míssil. Não sei. Sei que eles tiraram tudo de mim. E, embora eu ainda não saiba, vão me tornar um símbolo. A minha fotografia sairá em todos os jornais e revistas do mundo como a daquela menina do Vietnã, correndo nua pela estrada, queimada de napalm.

Eu não quero ser símbolo desta invasão da minha terra.

Eu quero meus braços, minhas mãos, minha mãe, meu irmãozinho que ia nascer, meu pai, minha casa, minha cidade, minha pátria. Ou me deixem morrer.

 

 

 

 

 

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