Cléa Sá

A bengala da Morte

Quando   Carlos acordou, a Morte já o estava esperando no portão da chácara. Por algum   motivo, ela não conseguia entrar na casa. Precisava que ele saísse,  para abraçá-lo e então guardá-lo em seu   manto cinza.Carlos   fez sua higiene matinal e não quis café. Como era um feriado, achou melhor   comer alguma coisa na feira. Deixou a esposa e os meninos ainda deitados e   caminhou rumo ao portão. A Morte sorriu e esperou.Os cachorros,   na noite anterior, haviam virado a lixeira e rasgado alguns sacos de lixo. O   que não era comida, estava espalhado pelo gramado. Carlos voltou e começou,   com as mãos nuas, a recolher a sujeira. A Morte bateu sua bengala no chão,   com raiva.Em seguida,   Carlos lavou as mãos, bebeu um pouco de água e começou a caminhada até o   portão. Não era uma distância longa, pouco mais de cinquenta metros. A Morte   sorriu e abriu seu manto.-   Papai, papai! – gritou sua filha, ainda de pijamas, correndo na sua direção.   Carlos sorriu, pegou a pequena Lilian no colo e caminhou de volta para casa.- Se   você quer ir comigo para a feira tem que se vestir direitinho.  Não podemos   levar uma menina sonequinha para a rua, brincou.A   filha, do seu ombro, viu a Morte bater novamente a bengala no chão, com   raiva.Seu   pequeno coração disparou. Em um segundo entendeu a quem a Morte esperava, e   temeu não poder impedir o pai de sair.

Abraçou-o   mais forte e falou: Pai, e se você escrevesse uma nova história para mim?

–   Outra, minha pequena? E sobre o que seria esta história?

– Sobre  um poeta que ia saindo de casa e a Morte estava esperando ele no portão com   uma bengala e uma capa cinzenta. Aí, a filha dele vê e pede pro pai escrever  uma história para que ele não saia e a Morte não o leve.

Pela terceira e última vez, a Morte bateu sua bengala no chão e sumiu.

Vicente Sá

 

4 Responses para “A bengala da Morte”

  1. Cléa Sá
    clea sa
    26/04/2013 at 11:03 #

    Vicente,

    belo conto. Considere sempre este espaço aberto pra você. Você faz nosso blog subir de patamar. Quando virão outros?
    Abraços
    Cléa

  2. maria eugênia sá
    24/04/2013 at 22:55 #

    Belo conto..muito tocante!

  3. Julieta Monteiro
    24/04/2013 at 21:33 #

    Realmente, muito emocionante, Vicente e Cléa. Relembrei a última vez que estive com meu pai, aos meus 17 anos de idade e o Sá Junior, partiu muito jovem. Que Deus os tenha. Beijos para vocês.

  4. Dina Brandão
    24/04/2013 at 16:28 #

    Lembrei do meu pai. Na ultima vez que o vi, com barba por fazer, de pijama no jardim da frente da casa onde morávamos em Niterói, no Saco São Francisco. Ele lançou um olhar melancólico. Já estava se despedindo, eu não entendi mas senti que era a ultima vez que eu o veria. Eu tinha 9 anos e muitos sonhos e esta imagem ficou gravada na minha memória até hoje.
    Dina