Julita

A vida e a alegria.

Nós que aqui estamos por vós esperamos, frase cunhada num portão de entrada de um cemitério em algum lugar do Brasil, do qual não me recordo o nome. Faz tempo assisti um documentário ou reportagem e não sei mais do que tratava realmente.

O fato é que a frase me veio por inteira assim que acordei.Não me assustou nem um pouco. Há dias buscava um assunto pois Julita vem me cobrando, seus dois ou três leitores, entre os quais me incluo, estão decepcionados em não mais encontrá-la no blog da Cléa, falando aleatoriamente, para não dizer pelos cotovelos.

E não é que acordei com essa frase na cabeça?

Ontem mesmo espalhei sobre a mesa meus papeis catando em outros escritos uma inspiraçãozinha. Algum resto de assunto talvez pudesse ser reaproveitado, reciclado ou atualizado e servisse de mote para algumas linhas. Ando desconfiada com tanta falta de assunto, me sentindo encabulada, afinal tenho um compromisso e estou falhando, o que pode parecer descaso ou pouco caso com Cléa e o seu blog. Ela, como minha amiga vai, espero, com certeza, me desculpar. Mas, e, os dois ou três leitores de Julita?

A falta de assunto, um tormento, nada, nenhuma ideia ou sentimento tomava corpo. Insistente só mesmo a morte, não só como assunto recorrente, mas nas perdas, muitas, que aconteceram a minha volta. Posso dizer que esse semestre, encerrado com as festas juninas, foi pródigo comigo em momentos de adoecimentos e mortes rondando o meu viver. Queiramos ou não, mais cedo ou mais tarde, haveremos de nos deparar com a finitude, com esse acontecimento, a morte, e é bem melhor que não seja um embate, mas um encontro e ela nos leve pela mão ou em seus braços como uma velha conhecida. Não me nego, por constatação e única certeza a olhá-la atentamente e até preparar esse desenlace com um certo destemor.

É claro que nos esquivamos aqui e ali de convivermos com ela mais intimamente. O passar dos anos, no entanto, vai tornando sua presença mais contínua, quase permanente. As comemorações, as celebrações vão escasseando e o estar juntos, todos vivos, uma lembrança congelada nas fotografias se transformando numa grata recordação.

A vida lembra a morte em tudo.

O efêmero dos ipês, o nascer do dia e o anoitecer, o calendário marcando também, como o relógio, o passar do tempo que atualmente anda a galope… O encontro com amigos que moram longe e, na despedida, nos deixam com um gostinho travoso e nostálgico- será que nos veremos outra vez?

Afastando-me do assunto, não querendo falar sobre a morte e seus volteios indecifráveis me envolvendo, afastei-me do ir e vir de minha curiosidade e de tudo o mais. Nenhuma ideia surgia que valesse à pena ser esmiuçada e se transformasse em palavras, frases, outra ideia…

Hoje pela manhã me rendi acordada que fui pela frase. Nítida, clara, inteira. Solene, poderia dizer, me soou aos ouvidos.

Nós que aqui estamos por vós esperamos.

Tão nítida a frase que me vi diante do portão de ferro à entrada de um cemitério alhures… Fizera tanto esforço para mantê-lo fechado! Por tantos dias fugi deliberadamente de atravessá-lo e trazê-la à vida e, como ela em seus passos mudos também emudeci.

Escrever um lamento com pesar e tristeza pela morte de uma amiga tão querida, e, de outras tantas pessoas que apenas sabia que existiam pelos jornais, escritores, atores e outros mais. Elas não sabiam de mim e, no entanto chorei por elas, pela falta que me fariam. Cada uma em sua falta empobreceu meu mundo que naturalmente vai se resumindo, se restringindo e só me cabe preservá-lo, mantê-lo arejado e acolhedor.

Enfim, a experiência com o adoecimento e a morte é dolorosa e nos deixa melancólicos quase nos arrastando para um bosque que se chama solidão. Nesses momentos a solidão é uma ameaça e não mais um mergulho profundo nas águas tépidas do nosso imaginário, uma calmaria, um descanso. De bem-aventurança a um perigoso precipício sobre o qual nos debruçamos mirando a dor e o desespero. Na boa solidão há encontro, reconhecimento de sentimentos e emoções, lembranças vivas, recordações quentes e substanciosas que nos dão sustentação. Ao contrário do enamoramento melancólico quando uma espessa e pesada cortina recobre nosso encantamento pela vida com pesar e sobressaltos.

E disso não queria falar…

Nós que aqui estamos por vós esperamos
frase tão simples, tão óbvia, tão clara! Tão definitiva. Era disso eramos, que andava fugindo. Estava doído demais, assustador demais, temido demais. Se não queria escrever, meu corpo só me falava disso: um resfriado, uma dorzinha aguda e resistente, um cansaço para as coisas da vida.

Os ipês não me maravilharam, o por do sol acontecendo anônimo, uma dor constante e irritante corroendo minha alma, estragando meus pequenos prazeres e me acordando no meio da madrugada.

Nenhuma réstia de claridade…

Nenhuma ideia em que pudesse me agarrar ou agarrá-la e dar curso a outra inquietação, outro assunto. Sou boa de briga, eu sei, embora atualmente celebre mediações e pactos de paz.

O primeiro rasgo chegou-me numa tarde das férias que divertidamente passamos, adultos e crianças, com direito à pipoca e filme dublado (!!!), cercada de olhos admirados e atentos às estripulias dos personagens, falas entrecortadas de curiosidade. Risos. Nesse mundo infantil, a redescoberta da alegria. Para as crianças um direito absoluto, para nós adultos algo a conquistar, dia após dia, apesar de tudo.

O portão de ferro agora estava entreaberto. Quem sabe São Pedro tenha ajudado, pois dele é a chave dos céus! Lá dentro estão todos os que já se foram e eu aqui fora vislumbrando novos sentidos para essa instigante perplexidade diante do desconhecido que é a vida.

Para nós que aqui estamos, do lado de fora, há algo que se abre e se fecha, uma báscula por onde passa a miragem da morte mas também a alegria da vida e devemos fazer por merecê-las.

JULITA.

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