Julita

Uma paisagem, apenas

Há tanto tempo contemplo essa paisagem e ela, lá de longe, me desafia. Ela não me sabe, mas, eu sei dela. Basta isso. Eu sei que sempre, a cada ano, a cada vez que retornar aqui a encontrarei exatamente como a deixei. Ou, penso que seja assim. Em sua natureza ela é apenas uma paisagem.

No entanto eu, ah! quantas mudanças, transformações, transmutações, transtornos, trâmites, transbordamentos e tudo isso que vamos contornando, construindo em cumplicidade com o tempo que passa, com os acontecimentos e fatos, com a razão exigindo mais serenidade e prudência e o coração saltitante, palpitante, desarrazoado…

E a paisagem lá. Imutável. Incólume. Indecifrável.

Entre mim e ela, a praia aonde posso caminhar; as ondas, nas quais temo me afogar, que se desfazem no mar aberto. Lá longe, as montanhas. Impassíveis entre o horizonte e o infinito.

E eu aqui, deslumbrada, intrigada, extasiada com tanta beleza, tomada por toda essa vastidão, quedo-me. Ela, indiferente ao meu olhar, ao meu assombro, apenas é uma paisagem. Nem se interessa de ser bela, comovente, árida ou agreste.

Não, não é uma inútil paisagem, não é sem utilidade sua invulnerabilidade ao passar do tempo e aos meus sentimentos: hoje estou triste, amanhã será outro dia ou o futuro não me pertence. Se ela não estivesse ali, impávida e majestosa, como eu iria me dar conta de que mesmo sem saber ela me contém?.

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