Julita

Sobre o pai

Diz-se que mãe é tudo igual só muda de endereço. E o pai?

Em nossa cultura, de tradição judaica-cristã, o pai ocupou um lugar preservado, distante do corriqueiro e banal dia a dia, das miudezas dos afazeres domésticos, e sendo assim de cuidar e se envolver com suas crias. Aliás, é bom que se diga – a principio, ele, o homem, nem sabia que a cria era sua! Foi preciso séculos para que isso se tornasse evidente e, portanto, passível de legitimidade. Ou não. Era importante saber se os filhos eram seus herdeiros de fato.

E por aí entramos num desenrolar histórico e jurídico que chega até nossos dias com o exame de DNA nas mãos, exigências de pensões e do não-abandono afetivo, etc, etc, etc. Disso a lei cuida ou descuida, pois quando se cobre um santo se descobre outro. A lei existe e se fará, é o que esperamos. Sentimentos e cuidados, contudo, não são regidos por nenhuma lei formal. Pela sua própria natureza são como que ligados ao mais íntimo, mais arraigado e mais próximo às paixões humanas.

Então, o que pensar?

O que é mesmo um pai? O que se espera dele?

Afinal já estamos na segunda década do sec. XXI e não mais podemos desconhecer os avanços conseguidos para fazer de nós, humanos, algo mais que instintos e paixões, tão aquém do que nos inscreve como seres racionais, pensantes, civilizados.

Agosto ainda nem se anunciava e já um sem número de sugestões e ofertas se atropelavam, e nos atropelavam, pela insistência de presentes, de se festejar em torno do pai. Pai que deseja ser presenteado com roupas de marca, objetos eletrônicos e todo um verdadeiro arsenal de modismos da contemporaneidade.

O pai, esse terceiro que foi chegando e ganhando espaço, definindo lugares numa relação que antes era dual, quase exclusiva e absoluta entre a mãe e seu bebê. E, graças a sua entrada há mudanças, transformações. Há algo que não somente simbiose, que estava fora e agora compõe um trio. O pai possibilita uma outra maneira de estar na vida, um outro jeito de conviver e amar. Isso merece celebração, sem dúvida.

Pois bem, usando o bom senso, todos nós sabemos que nem mãe e nem pai é tudo igual. Muito menos quando mudam de endereço. Cada mãe, cada pai, são não somente diferentes para cada filho, mas diferentes entre eles. Quer dizer, mesmo sendo pai ou mãe algo fica preservado em cada um, o que o distingue de outra mãe e de outro pai.

Festejos e amor à parte, fundamental é mesmo se dar conta que, pai – presente ou ausente, vivo ou morto, bom ou mau- é tão somente alguém como qualquer um de nós, tentando viver a vida e se atropelando com seus erros e acertos, ilusões e equívocos.
Postado em 6/8/2012

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