Julita

PRIVILÉGIO! COMO?!!!

Envelhecer é um privilégio. Tenho pensado e falado muito nisso. E, com isso concordo inteiramente quando me lembro dos muitos que já se foram antes de mim e, com menos idade. Então, ir-se adentrando pela vida, nesse sentido, é um privilégio, uma vantagem, uma prerrogativa. Mas, convenhamos, nem só de pão vive o homem.

Acreditando no inconsciente como acredito, acho que cada um constrói sua própria morte, tal como os antigos construíam suas mortalhas e os egípcios, suas pirâmides.

Envelhecer é um privilégio continuo pensando, privilégio em continuar tentando, buscando novidades, novas idades, postergando o final do terceiro ato. Como disse minha mãe, cuja longevidade e lucidez foram invejáveis, quando lhe perguntei, numa conversa trivial e amena, em seu último Natal, o que ela mais havia gostado na vida, ela, de pronto, respondeu: de viver. E, sei, que sua vida teve pedaços bem difíceis…

Então, seria esse o privilégio? Existir, perdurar, numa ilusão de perpetuidade que não comporta a morte, essa única certeza, o não-ser, o não-existir. Provavelmente.

Por esse viés fica mais confortável aceitar o privilégio. Não uma vantagem concedida, mas uma conquista nessa construção que é essa nossa vidinha do dia-a-dia: miúda, repetitiva, incerta. Ameaçadora, dolorosa e tão triste, às vezes. Leve e alegre, outras tantas. Construir, conservar, conversar, costurar, cozinhar. Tecer. Escrever. Dançar. Cuidar. Viver. Amar a vida do seu jeito e sabendo que ela não é pra sempre.

Pra mim o privilégio é a curiosidade diante desse se refazer constante que a vida nos coloca: todo dia ela faz tudo sempre igual, me acorda às seis horas da manhã, já cantou Chico Buarque, décadas atrás.

Repetição? Que nada, é tenacidade. O privilégio é o trabalho que ainda temos a fazer. Tecer o sonho agora enodado na realidade, costurar os furos, os buracos do não entendimento. Escrever para não esquecer. Escrever para poder esquecer. Aquilo que tanto nos fez sofrer expirou, perdeu o prazo de validade. Não sei, mas acho que já escrevi isso de uma outra vez…

Sem dúvida é preciso uma boa dose de coragem, mas, para quem já vem há tempo na estrada e conheceu os sabores e dissabores dos dias, as ameaças das noites insones, seja por qual motivo, é preciso também, cantar, olhar, descansar, espairecer. Descobertas são sempre bem-vindas. O privilégio, acredito, é se apropriar dessa curiosidade de se estar vivo. É se inventar, se revirar pelo avesso do avesso, oh! Caetano, não me deixe mentir.

Descobrir o novo no idoso. Só pra rimar pois prefiro a palavra velho. Ancião é bonita mas cheia de pompa, não cabe mais no nosso tempo. Caiu em desuso, portanto é preciso cuidado!

Uma opinião para “PRIVILÉGIO! COMO?!!!”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    03/06/2014 at 15:17 #

    Junita, viver é preciso! Cair em desuso, um perigo. E o eterno renovar de cada dia, uma luta.
    Muito bom o seu texto. Como sempre, faz pensar.