Julita

O passado revisitado.

Por quê, pergunto-me várias vezes, o passado se torna tão relevante
com o passar do tempo? Situações vividas, as mais corriqueiras, outras já esquecidas brotam de nossa memória com um vigor e um frescor de novidade.

Esquecer é uma maneira de lembrar, dizem alguns. Porque esquecemos e porque lembramos ficariam sem respostas se de algum jeito não soubéssemos que, lembrar e esquecer, vinculam-se aos nossos afetos, sonhos e projetos. Sem querer dizer com isso que esquecemos e lembramos de acordo com nossa vontade, nossa capacidade de fugir da dor e guardar apenas as boas, alegres e calorosas. As outras, a gente rapidamente se livraria delas. Esqueceríamos, por completo.

É bom não esquecer: o tempo é feito desse mesmo material imaginário que tece lembranças e esquecimentos, nossas ilusões, sonhos e devaneios. E, por serem imaginários o tempo e os afetos, são passíveis de cores fortes ou tênues, de imprecisões e falhas. As lembranças vão e voltam, algumas deixamos escapar e outras quedam-se esquecidas, à mercê de nossas paixões, aí se esconde o perigo. Datas e celebrações, acontecimentos inesperados ou aqueles marcados com muita antecedência e pelos quais ansiosamente esperamos, contando os dias e as noites. Tempo e sentimentos se fundem e nos confundem.

Esquecer de lembrar.
Lembrar de esquecer.

O tempo, em sua sabedoria de escultor, como que vai trabalhando as boas lembranças e também aquelas que gostaríamos de esquecer. Não sei como acontece, e, penso não ser apenas comigo,mas o tempo vai se encarregando de refazê-las, dando-lhes outras tonalidades e nuances, esculpindo novos contornos.
Talvez, com o seu cinzel, o tempo preencha as fissuras, as falhas da memória. Ou das lembranças? Sei lá. Desse novo angulo, à distância e, num só depois, surpresos percebemos que tristes, alegres, esmaecidas ou esburacadas pelos esquecimentos, as lembranças vão se compondo, se entremeando umas às outras tecendo um relevo, um bordado. Esse agalma testemunha de que vivemos e amamos, sofremos, nos desesperamos e sobrevivemos…

O passado é também uma certeza quando o futuro vai se definindo como absoluta in-certeza.

Não sabemos se cedo ou tarde, se amanhã ou depois de depois de amanhã, mas, agora com certeza sabemos, para sempre não existe.

Julita.

ASSUNTOS ALEATÓRIOS DE J

Uma opinião para “O passado revisitado.”

  1. Carmen
    12/12/2013 at 17:00 #

    Encantadora Julita! Às vezes, as lembranças ou esquecimentos são apenas frio na barriga, como o que senti ao ler O passado revistado.