Julita

O inquietante acaso

          Inevitavelmente o final do ano é um tempo de revisões, reflexões e promessas. Talvez por trazer com ele algo de acabado, sem volta. Enfim, leva-nos a pensamentos de finitude e, me parece, daí nasce a quase necessidade que se impõe de decisões, mudanças e projetos.

          Nesse movimento de olhar o que já se foi e a novidade de um novo ano carregado de desejos, ocupamos nossa imaginação, gestando novas maneiras de lidar com os indecifravéis dias que o calendário prenuncia.

           Vivendo-se, aos poucos, vamos entendendo o quanto é penoso abrir mão de sonhos acalentados, promessas, melhor dizendo, de ilusões com as quais tecemos vãos roteiros de perfeição e felicidade. Contudo, é também enquanto se vive que é possível conceber uma nova versão para a tão almejada felicidade. A perfeiçãodeve-se deixá-la de lado, senão abandoná-la de vez, pois, sempre, nos traz prejuízos e dor. Perfeição não combina com o ser humano. Somos inacabados como a Sinfonia. Eternamente em construção. E, aquilo que nos parece perfeito hoje, amanhã é acrescido de significados e emendas fazendo-nos constatar o quanto era imperfeito ou atémesmo tosco.

          Estamos sempre inquietos, em busca desse algo sonhado que, presumimos, nos deixará contentes, satisfeitos e felizes. Sem falar que, no mais da vezes, não sabemos como fazer e se nosso intento será alcançado. Tarefa difícil, convenhamos, conciliar essa inquietude e a harmonia que parece transbordar nos momentos felizes. Tal como nas fotografias. Harmonia também não combina com inquietude. Plácida demais, serena, quase divina…

          Como então conciliar a intensidade de nossas demandas de felicidade e o inquietante acaso que nos espreita quando descortinamos o imprevisível dos dias e das noites?

          Olho o calendário de 2013 que tenho nas mãos. Alí estão os dias, as semanas e meses, os feriados e dias santos. Postados, formatados, definitivos. Sem rasuras mas sem densidade, sem a dimensão do acalentado e da surprêsa.Há que se vivê-los, portanto, prenchê-los de expectativas de felicidade, de celebrações, encontros e projetos. Mesmo que o imponderável nos alerte sobre as incertezas de tudo o que não é o presente, o hoje.

          Talvez isso seja mais razoável…

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