Julita

O gosto pelas palavras

Gosto que me enrosco dessa palavra – aleatória . E de outras tantas mais.

Gosto dela porque gosto de acaso, avulso, inevitável. Inevitável – acho-a instigante e ao mesmo tempo confortável. Instigante por sua aparência de imponderabilidade, daquilo que não pode ser evitado. Confortável porque, como é inevitável, parece que nos autoriza: relaxe e goze. Ou, no mínimo, não se escuse.

Guardo uma poesia de Neide Arcanjo, onde ela diz que – as palavras, rochas por fora, (se não me engano), são mares por dentro.  Mares por onde navegamos longe das vistas dos dicionários e gramáticas, escavando fundo para criar imagens como essa da Neide Arcanjo, poesia, teorias e explicações. São elas nossas ferramentas. Contudo, gostar é de outra ordem. Enquanto enfileiradas alfabeticamente no dicionário ou tomadas por adjetivos quando antes eram apenas substantivos, isso é uma coisa, outra é agregarmos a elas um valor afetivo. Aliás, não sei por que enveredei por esse viés.

Talvez, pela renúncia do Papa Bento XVI que nos pegou de surpresa neste Carnaval.

Surpresa é uma palavra que em geral só nos oferece seu lado mais lúdico, alegre e cheio de belas promessas. Já renúncia é uma palavra muito pesada, carregada de efeitos e consequências, tanto para quem renuncia como para aqueles que por ela são atingidos.

Há alguns dias fomos surpreendidos pelo suicídio de Valmor Chagas. Suicídio, palavra que se comentava em voz baixa, e se possível, excluída dos noticiarios, ato punido com o silêncio e que nunca levava em conta a subjetividade daquele que o praticava.

Subjetividade, palavra que me encanta, plena de singularidade e ousadia, que nos dá direito à invenção de uma ideia, de um ato, de uma vida ou de uma morte. Saber dessa singularidade, que se é único, encerra “mares nunca dantes navegados,”, consciência das limitações e do fim que não se quer doloroso demais.

Renunciar nem sempre significa covardia mas apenas ser fiel a sua fé e a si mesmo, como o foi Jó.

O que seria de nós se não fossem as palavras, e, de preferência, as que aleatoriamente atravessam nosso pensamento e nos fazem perseguí-las como se quisessem dizer mais do que, de fato, dizem!

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