Julita

Um olhar contemporâneo sobre o envelhecer

 

Muito já se falou de Amor, o filme, pelo destemor em mostrar, do amor, sua face cruel em toda sua inteireza. Longe de mim analisar o roteiro, a direção, a fotografia. Apenas me causa interesse a história que nele se desenrola. Aliás, uma história quase banal não fossem seus personagens pessoas que por seus talentos se distinguiram como professores e musicistas e por isso gozavam de prestígio e reconhecimento entre os demais.
A história de um casal que envelhece juntos e juntos partilham o cada vez mais trivial dia a dia. A cumplicidade de toda uma vida, encontros e desacertos, encantamento pela música e seu ensino, agora se resume àquela mesa na cozinha diante de uma janela, onde sentados conversam e fazem suas refeições. Conversas, saladas e anotações, provavelmente lembretes. A janela sempre fechada filtra a claridade e talvez alguns barulhos do mundo lá de fora, cada vez mais distante. O casal cultiva sua intimidade e sua solidão como algo precioso e seu confortável e bem cuidado apartamento parece nos dizer que foi assim também que construíra seu casamente, sua relação.
Como suportar então a perda dessa parceria quando já nos sabemos frágeis em nossos corpos e desconfiados de nossa memória? Como acreditar que é possível sobreviver?
Isso é Amor, parece-me. Isso é amor?
Um outro filme está nos cinemas com o mesmo tema. Não sobre o amor entre um casal, mas o envelhecer e suas vicissitudes. Menos seco, menos contundente, O Quarteto toca nessa questão do envelhecimento com desenvoltura e simplicidade – Dustin Hoffman dá seu recado e presta sua homenagem aos músicos e cantores outrora célebres. Há um quê de proximidade, de semelhança, tanto com O exótico Hotel Marigold quanto com E se morássemos todos juntos, como se ainda buscássemos um novo saber mais adequado à contemporaneidade.
Afora Amor, esses filmes trazem uma certa leveza ao inevitável do envelhecer e quiçá morrer. Há lugar para o riso, para a alegria e novos projetos que convocam à uma vida com gosto de prazer e um pouco de ousadia. Em O Quarteto, os habitantes reunidos numa sonora e interessante casa de repouso pelo destino, pela sina de quem sobreviveu até alí e agora carece de cuidados para seguir adiante e finalizar o concerto, a peça, o ato final de viver, do qual não se escapa e nem também se sabe o dia e nem a hora…
O tema tem sido recorrente de um tempo pra cá. O envelhecimento era coisa para se viver recluso, com recato, sem queixas de preferência e sem ilusões de ter o que pensar e menos ainda de dizer e ser escutado. Por que então o interesse por esse tema pelos diretores, atores e público? Cá com meus botões, como diz o ditado, penso que são os resquícios de toda aquela movimentação que nós jovens de então, dos anos 60, um pouco antes e um pouco depois. Ou seja, nos acostumamos a tirar as coisas dos lugares: o status quo, a altura das saias, a pílula anticoncepcional que mudou definitivamente o tom da sexualidade humana, o gosto das mulheres pelo trabalho fora de casa e pelo vil metal, a moral e os bons costumes…Não é à toa que aconteceram os hippies, os Beatles, os Rolling Stones, o rock, a bossa nova e, para não dizer que não falei de flores, a queda do muro de Berlim.
Sem dúvida isso nos fez envelhecer assim, pondo os dedos em nossas próprias feridas, revirá-las, buscando uma nova interpretação para algo tão antigo como viver e morrer.
E por aí vamos ensinado e aprendendo a falar do que não pode ser dito, a exigir atenção para o viver contemporâneo e dizer que não é bem assim, a melhor idade, mas, o envelhecer tem sim suas delícias.
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Uma opinião para “Um olhar contemporâneo sobre o envelhecer”

  1. Cléa Sá
    Clea
    16/03/2013 at 23:41 #

    É um belo texto, Julita. e muito atual. É interessante a sua observação sobre os muitos filmes que tratam do envelhecimento e sua explixação para isso. Gostei muito. Um abraço
    Cléa