Julita

NATAL, AS LEMBRANÇAS DENTRO DA GENTE.

Abriu o armário. Retirou as caixas. De vários tamanhos e formatos guardavam,
desde fora, memórias de outros natais. Sabia de cada enfeite, cada bolinha, cada anjo e laço de fita.
Colocando-as, sobre a mesa se questionava quanto ao seu próprio desejo de preparar a casa para o Natal.
Agora abertas, as caixas revelavam seus guardados já tão conhecidos. Enquanto desembrulhava uma sensação de familiaridade, de retorno, uma certa nostalgia se impregnava ao toque.
Gostava de olhá-los, coloridos, brilhantes festivos. Cada qual lhe trazia um momento, um rosto, um sentimento. Até mesmo ruas e atalhos.

Papai Noel existe mesmo ou não, era o que se perguntava enquanto sua mãe lhe levava pela mão, atravessando a rua em direção àquela loja, o shopping de sua infância. Lá morava o Papai Noel durante o mês de dezembro. Aquele velhinho de bochechas rosadas e sorriso constante, parecido com Mestre, ou seria Feliz?, um dos anões de Branca de Neve. Havia as músicas cujas letras eram pedidos depresentes, felicidade e paz. Havia o que seu pai contava sobre ele, para ela e seus irmãos.
Como não acreditar, então?

Hoje, contudo, ela sabe que sempre soube que não era verdade. Não lhe causou nenhum mal estar quando, anos depois, lhe disseram ser pura encenação. Talvez os cochichos dos mais velhos lhe indicassem se tratar, apenas de uma historinha fantasiosa.

Uma bolinha azul rolou sobre a mesa.
Lembrou um Natal em que todos choravam, ela e seus irmãos, por terem sido acordados.
Ou teria sido na noite de ano, o reveillon de agora? Não tinha certeza. Correndo, como a bolinha sobre a mesa, outra recordação atravessou sua memória: o Natal após o nascimento de seu primeiro filho. Comprara uma árvore prateada, enorme, bem ao gosto do final dos anos 60. As bolas em forma de pingos, de um azul fortíssimo. Psicodélica, moderna, refletia em seu brilho metálico algo como desafio, uma ruptura. Isso era o que fazia pulsar o mundo naquela época. O convencional estava, definitivamente, fora de moda. As saias encurtaram, as ideias traziam um frescor de vanguarda e libertação.
Descobrira-se a pílula anticoncepcional!

Onde colocar o pinheirinho que seu neto lhe pedira?
Seus olhos percorreram a sala. Viu-se noutra sala, muitos e muitos anos atrás. A Árvore de Natal pegara fogo e com sua camisa seu pai apagara as labaredas. Aquele pinheiro, bem diferente dos de hoje, era todo feito em casa, artesanalmente. A madrinha o confeccionava e ela e sua irmã ajudavam. As hastes eram de arame envolvido em papel celofane verde-escuro e presas a um cabo de madeira. Bolas e enfeites eram pendurados e, nas pontas das hastes, pequenos castiçais com velinhas. Só na noite de Natal seriam acesas, As fotos, os retratos como se dizia, ainda guardam esse tempo, essa emoção.

Não há como fugir ao lugar comum: parece que foi ontem…

Em vários natais ganhara diferente bonecas. Quê mais uma meninhinha desejaria, senão uma boneca?
Todas de louça, de porcelana. Portanto, havia que se ter cuidado mesmo quando se brincava. Qualquer descuido destacava a pintura, ou pior, quebrava. Como as bolinhas das antigas Árvores de Natal, eram frágeis, frágeis.
Hoje não. Tudo é prático, resistente, inquebrável.

Surpresa, se deixou levar pelo imprevisto de seu pensamento: e, se por manusear objetos, coisas que não carecem de cuidado por serem inquebráveis, nos acostumamos à ideia e esquecemos que nós, seres vivos, pessoas humanas, continuamos sendo fabricados com o mesmo material perecível, sujeito a danos e estragos?

É, talvez fiquemos tentados em acreditar que também somos refratários, resistentes ao uso, inquebráveis.

Quem sabe se nos modernizando esquecemos que fomos feitos do mesmo barro de Adão e Eva.
Somos frágeis, frágeis.

Olhando novamente os enfeites, pega em suas mãos um pequeno presépio. Ah!, essa história sim, lhe fascinara.
Diferente da outra, do Papai Noel, essa nunca lhe parecera fantasiosa. Maria, era um nome comum. José, um carpinteiro. E, Jesus o filho deles. Uma família como outra qualquer.
No entanto, ainda quando criança, olhava a mulher e não entendia como alguém poderia suporta toda aquela verdade.
Se não bastasse ser escolhida, virgem, quase uma menina, para ser a mãe de Deus, saber de antemão de todo o sofrimento- seu e de seu filho- lhe parecia demasiadamente cruel. Mistério ainda maior era que em seu rosto não houvesse nenhum vestígio de dor ou desespero. Apenas placidez e consentimento. Olhando o menino se perguntava, por que ele?
Não entendia, era só perplexidade…

Tão instigante lhe parecera essa história e de tanto pensá-la, e repensá-la a cada Natal, foi aos poucos desvelando seu mistério, sua mensagem. Compreendera que cada um tem seu caminho, sua verdade, sua vida. Tudo começa na cultura, na geografia, nos astros, talvez. No corpo, sem dúvida, onde cravado em nós, algo nos cinde e nos faz inventar o humano.

Lembra-se de Mona Lisa e seu sorriso enigmático. Agora, sem perplexidade, mas com uma certa sabedoria, conclui para ela mesma: cada um é que sabe (como gostava de repetir um amigo muito querido que já se foi), a dor e a delícia de ser o que é.

Em cima da mesa, as caixas, agora vazias, ocas de suas histórias, incitam-lhe ao inesperado e ao novo. Só alguns conseguem viver e transformar a realidade. Mas, não custa tentar. Que sejam bem-vindos o novo, o inesperado, pensa ela aparando com as mãos as bolinhas que teimavam em lhe escapar.

Sem comentários ainda.