Julita

Liberdade, liberdade

Ah! Julita, Julita! Não desapareceu não, gente. Sequestrei-lhe a palavra.Ela andava exibida demais quase me expulsando da minha toca, do meu esconderijo. Sequestrei-lhe a palavra. Pronto. Quem sabe, pensei, ela aprenda que é apenas um pseudônimo, como que um biombo por onde deixo passar fugazes impressões do viver, o meu e o de outros.

Sequestrei-lhe a palavra, a liberdade. No primeiro momento, um alívio.Senti-me preservada em minha anônima identidade. O tempo foi passando. Os dias e as noites seguindo, seguindo até que o alívio já não era mais alívio e,comecei a sentir falta da espontaneidade de Julita, do seu falar pelos cotovelos quase me revelando. Agora era eu que estava prisioneira, sequestrada do meu olhar, dos meus ouvidos e de minha boca, para ver, ouvir e falar …ou calar. O feitiço virou contra o feiticeiro . E, como feiticeiro e feitiço são apenas as duas faces de uma mesma realidade psíquica,arrependida fui em meu socorro. Ela, Julita, em seu cativeiro já encontrara com o que se ocupar.Andava toda prosa, pintando e bordando, recortando artigos, comentários e notícias, ocupada com os rumores em torno do tal assunto das biografias autorizadas e não-autorizadas.

Vi seu olhar atrevido e desafiador, seu nariz emproado e sua boca quase deixando escapar sua raiva surda e sua decepção. Vislumbrei também um certo ar de vitória, mesmo que apenas interrogado.

Então, me perguntei: de que tenho tanto medo do que ela possa dizer a ponto de sequestrar- lhe a fala.? Logo eu que escutei e aprendi que se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, sem lenço e sem documento, caminhando contra o vento, num domingo no parque, eu e a namorada de um amigo meu… Esses e tantos outro dizeres que me emocionaram e ainda me emocionam e me deixam saudosa, feliz e orgulhosa de pertencer a uma geração que ousou mudanças não somente na música, mas e, principalmente, no viver nosso de cada dia.

Prometemos, abraçadas- feitiço e feiticeiro- que de agora em diante é proibido proibir e que todos juntos somos forte, não há nada a temer.

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