Julita

Faz tanto tempo, mas a saudade dele ainda dói em mim.

Foi assim chorosa que ela chegou me falando do pai. Havia morrido muitos anos antes, quase vinte. E ela me diz que essa dor ainda dói, lateja e precisa ser chorada.

O que a impedira de pranteá-la?

Não sabia bem ao certo. Talvez a pouca idade, talvez o cuidado com os filhos, todos pequenos na época. Talvez a própria proximidade com a perda, ainda tão real, sem possibilidade de contorná-la ou de sustentá-la com palavras, momentos vividos e recordações.

Não, não sabia ao certo. Só sabia que agora a dor e a saudade desabavam sobre seus dias e suas noites. Vivia triste, sem ânimo e sem desejos. Nada lhe alegrava o coração. Nem aquela coisinhas miúdas do dia-a-dia, corriqueiras e de tão banais e inesperadas nos encantam e tocam a vida pra frente, sem que se saiba a razão. Tinha um bom casamento, os filhos criados cuidando de suas vidas… Não entendia por que essa tristeza insistente, essa dor doída e as recordações que, de repente, lhe assaltavam tão intensamente que parecia vivê-las novamente. Não, não eram simples recordações, lembranças. Era como se estivesse vivendo de fato, tal o frescor e a nitidez, como quando olhamos uma fotografia de tempos passados, me diz, procurando meus olhos numa cumplicidade. Está tudo lá, preservado, mas nada mais existe. Nem os lugares, nem as pessoas. A súbita alegria trazida pela recordação se desfaz. Só resta a tristeza.

Mas, eu não sou assim, triste e chorosa, desanimada e indiferente. E, continua, não sei o que fazer com isso, olhando-me como se buscasse uma explicação, talvez. Tenho medo que os outros cansem de mim. Dessa que não sou eu, mas que se apoderou de mim.

Será que essa tristeza não vai passar, pergunta-me ansiosa. Já faz tanto tempo, não entendo. Pensei que houvesse vivido esse luto, me consolara, estava resolvido.

A vida não é assim? As alegrias e as tristezas vão se aninhando, encontrando um refúgio em nosso coração até que um dia falamos da tristeza com uma certa naturalidade, e, naturalmente diluídas sejam apenas lembranças e nos surpreendemos com o sorriso nos lábios, conformadas, consoladas. Não é assim a vida, uma composição de alegrias e tristezas, uma certa harmonia entre elas, não nos deixando tão desamparadas, tão sozinhas? As tristezas, as dores são acolhidas pela alegria, pelo amor, pelo encantamento com o viver. Se a natureza é assim, transforma outono em primavera e, se nós somos natureza também, isso deve acontecer.

Enfim.

Então, por que agora essa saudade, essa tristeza que não se acomoda em nenhum canto, essa perda que não se refugia em nenhum recanto de mim? Preciso chorar, falar. Falar e falar. Dissolver esse pranto, enterrar essas folhas secas ou deixá-las ao sabor dos ventos como faz a natureza em seu constante trabalho.

Seus olhos marejados de lágrimas se abriram curiosos, quase sorridentes me olharam, o pensamento longe, a boca entreaberta. Um silêncio se acomodou entre nós duas por algum tempo.

Sabe, voltou a me falar, vou plantar canteiros inteiros de antúrios, bromélias e pá-que-vira, beijo de frade, rosas, margaridas.
Em breve terei um jardim.

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