Julita

A estrela, ano novo e a página em branco.

A minha frente o papel em branco à espera de um assunto, o primeiro de 2014. Em vão. Até aqueles que perambularam pelos meus pensamentos se esconderam, escaparam nas inúmeras conversas de fim de ano.

Pensei muito, dias atrás, no significado dos Reis Magos e em como são pouco festejados entre nós. Logo eles que acreditaram no brilho da estrela e, em sua tão clara fé, vindos de distintos lugares, chegaram carregados de ouro, incenso e mirra para homenagear aquele menino que portava uma boa nova.

Lembrei também dos filmes que assisti nesses dias de supostas férias, entre o Natal e o comecinho do Ano Novo, Blue Jasmine e A grande beleza. Cada um em sua inteireza nos aproximando de questões essenciais: a fugacidade do tempo, o amor e seus equívocos, o sem sentido da vida. Tão belos e contundentes, tão desafiadores em seus contextos, nos fazem vivê-los e não apenas assisti-los, imunes aos seus efeitos.

O que fazemos nós nesse mundo? A pergunta parece nos acompanhar muito além da sessão. Sobressaltados e encantados, pensativos e maravilhados, saímos do cinema sem nenhuma estrela à vista anunciando um caminho, uma esperança, uma mágica, mero truque aliviando nosso choro contido diante do desamparo do viver e suas vicissitudes.

Mas, não era disso que queria falar.

Não do já vivido. Talvez coisas mais doces e amenas para começar o ano!…Janeiro é um mês prenhe desse sentimento de expectativas, de novidades, confessemos, no entanto, também de certa ansiedade com relação aos dias, semanas e meses que se anunciam, mas não se revelam por inteiro. Faz-se necessário que aconteçam, se desenrolem, para que, aos poucos, vá se transformando, se diluindo num dia a dia igual aos outros já vividos. Assim, parece-me, nos sentimos mais resguardados, menos expostos à revelia do tempo e seus acasos.

Mas não é isso que preciso escrever. Não?
A página continua à espera.

Hoje, quase me exaspero, não quero as lembranças, caminho quase seguro, já inscrito, sem incidentes nem desvios. Quero as ruas tortas, chão molhado, escorregadio, lodoso. Ruas estreitas. Precipícios. Ruelas anônimas, desconhecidas, inacabada.

Hoje não quero lembranças e a página em branco à espera me provoca tal como a estrela aos Reis Magos, demandando algo novo, como o ano. Pois se ele é novo, posso fazê-lo do meu jeito ou do jeito que quiser. Talvez seja isso que me cale, já que sei muito bem que o ano novo não é assim tão em branco e à nossa mercê. Esconde surpresas que não somente felicidade, alegria e realizações, das quais nem queremos falar para não dar azar.

O quê fazer, então, se as lembranças me fugiram todas?
E o ano, por ser novo, não tapa esse vazio da saudade dos que já se foram, esse  buraco da solidão humana, esse abismo do imponderável.

Enfim, a busca do viver bem apesar de…

Julita.

Uma opinião para “A estrela, ano novo e a página em branco.”

  1. Carmen
    22/01/2014 at 22:04 #

    Adoro a sua escrita, querida Julita.