Julita

Em busca do tempo vivido.

Havia tempo. Muito tempo para aproveitar a sedutora proposta
de ficar sozinha, que se delineava enquanto todos se preparavam para sair.

Havia chuva, muita chuva, se anunciando.

E nenhuma proposta de solidão.

Havia os jornais, silenciosamente provocativos a sua espera.

E as plantas, desejosas de cuidado, olhavam curiosas.

Havia a preguiça. A vontade de se espichar no sofá, se refugiar pra dentro do nada.

Havia pensamentos e quereres em conflito, tudo porque havia um tempo livre e, essencialmente, apenas seu.

Havia tanto tempo que não tinha esse tempo. Lembrou-se de Drummond e sua pedra no meio do caminho. Será que ter tempo era então mais complicado do que não tê-lo ou se sentir sempre espremido, achatado entre a obrigação e a devoção?
Não se deixaria invadir por tantos porquês, pensou.

Havia esse tempo e não deixaria que fosse perdido, ia usufruí-lo se deixando levar: folheou um pouco os jornais, agradou com seu olhar suas plantas que, vivazes, não precisavam de cuidados, arrumou sua gaveta de maquiagem e lá estava ela, uma lembrança de sua infância que lhe ocorria sempre que, com o lápis, contornava os lábios.

E, sempre que a encontrava, pensava: um dia escrevo sobre isso.

Era uma lembrança que lhe deixara uma inquietação, uma pergunta sem explicação até bem pouco tempo atrás. Talvez uns três ou quatro anos, não era muito boa em contá-los. Quando criança, sete ou oito anos, tinha umas primas casadoiras, quase solteironas, como se dizia na época. Uma delas, ao pintar os lábios contornava-os por fora. Provavelmente era a moda da época, mas era uma criança e naquele tempo criança nada sabia de modas e modismos. Enquanto a olhava cuidadosamente contornando os lábios, se perguntava por que ela fazia aquilo.

Passaram-se os anos. Muitos. Ela agora não mais uma criança, não mais uma jovem mulher e mais que uma mulher feita começara a fazer uso do pincel para delinear seus lábios. Realçá-los. Antes bastava apenas passar o batom e estava ótimo, perfeito.

Lembrou-se vivamente de Eugênia, era esse o seu nome. Surpresa, entre um sorriso e uma terna tristeza, quase numa cumplicidade extemporânea, compreendeu o que a prima fazia outrora – reparava o que o tempo lhe havia tirado, o vinco definido naturalmente, o risco firme que fazia o contorno do lábio- fronteira entre a juventude e o envelhecer.

Este mês de novembro é particularmente rico em datas, umas festivas e outras não, que envolvem pessoas muitos queridas, celebrações de acontecimentos únicos em minha vida.

Um deles traz a marca de quarenta e cinco anos passados, e, a minha perplexidade.

Quarenta e cinco anos? E, onde se escondem?

Talvez na caixinha de maquiagem. Ou, melhor dizendo, no lápis, não mais somente o pincel, que agora uso para contornar meus lábios e reparar as fissuras da pele em torno dele.

Quem sabe?

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