Julita

Dias de maio, dia das mães.

Talvez hoje eu devesse escrever sobre as mães, pois parece que maio fica impregnado desse segundo domingo do mês desde antes. E por que não? Não falo somente dos presentes, dos apelos e expectativas do comércio, mas de toda aura que se cria envolvendo a mãe nossa de cada dia.

Medo de me repetir? Talvez, mas …

Tempos atrás quando era uma jovem mãe costumava dizer aos meus filhos que era o dia dos filhos enganarem as mães.: almoço em família, flores, quem sabe um passeio à tarde, uma sessão de cinema. O tempo foi passando mas meu sentimento de engano, de alguma coisa equivocada persiste até hoje, tal como o sentimento de maternidade, agora se desdobrando em netos e outras instâncias.

Quando a gente descobre que quer ser mãe?

É uma escolha ou algo inevitável que nos atravessa? Ou tal como na natureza, mãe, brota em estações, se produz e se reproduz em flores, frutos, em chuvas, terremotos, chuvosas tardes de verão, neve, vulcões e mar revolto?

Será que uma escolha assim tão definitiva é de fato escolha ou a natureza de nosso ser se manifesta nesse desejo de maternidade? Não sei. Talvez não saiba nunca.

Daí a necessidade de repetir a questão, de repetir o texto, de repetir a encenação do dia…

O fato é que em minha já quase longa vida vi muitas mudanças acontecerem e comportamentos inaceitáveis irem se transformando pouco a pouco ou abruptamente em situações corriqueiras e de tão banais já não nos chamam à atenção.

Contudo, esse sentimento de um engano, como disse antes, persiste e confesso me incomoda muito e muito. Filhos, filhos, melhor não tê-los… versos de Vinícius que tanto recitei pra meus filhos. Foi um homem que os disse, é verdade. Mas quantas de nós não assinariam embaixo de tal preciosidade?

Dia das mães mais uma vez. Olho em volta não mais recitando, provocando ou desiludida. Apenas silenciosa. No entanto continuo equivocada. É preciso que se estabeleça um dia para homenageá-la, cortejá-la? Ou esse dia é para nos livrar da dívida de um dia ter sido parido do desejo dessa mulher, nos livrar da culpa de oferecer-lhe um amor não incondicional que é permitido só aos filhos e dá o direito de, no dia das mães equivocá-la, fazê-la acreditar que o nosso mundo gira em torno dela.

Pois, como minha mãe gostava de recitar, uma mãe é pra cem filhos mas sem filhos não é pra uma mãe.

Escutava, escutava e não me dava conta de que embutida na linguagem o som equivocava e não me deixava entender que sem filhos não é para uma mãe…

Julita.

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