Julita

DEPOIS DA TEMPESTADE…

… diz o ditado, vem a bonança. Pego o dicionário à procura da palavra. Mas, não é a palavra que busco. Algo dentro de mim lampeja. Lá fora os raios rasgam o céu. Estremeço com o esbravejar dos trovões e, me assusto com os clarões iluminando a escuridão da noite e da cidade às escuras. Contudo, eles me fazem entrever uma lembrança, antiga, que compõe esse meu eu do qual não desconfiara ainda. Na minha mente infantil de então, a imaginação corria solta e, quieta, eu inventava histórias com os ditos que ouvia dos adultos: chuva com sol, casamento de raposa com rouxinol. Casamento esquisito esse, pensava.
Ou, trovões e relâmpagos era São Pedro arrastando os móveis e lavando o céu. E, como não entendia muito continuava tecendo, buscando descobrir, compreender, curiosa que sempre fui.

Não sabia ainda de rimas, apenas do encantamento que as palavras carregam em seus ditos e dizeres.

O céu claro da manhã seguinte, de um azul lavado pela tempestade, livrou da escuridão aquela lembrança que relampejava entre um clarão e outro: meu pai e minha acendendo velas pela casa como se quisessem afastar para bem longe o temor de alguma coisa pior que o furor da natureza que perturbava o sono
de seus pequenos filhos. Deitados ao nosso lado, ajeitavam os lençóis, nos cobriam e, com esse gesto nos ofereciam segurança e carinho. A tempestade vai passar, o céu se acalmaria e tudo seria como antes, era como se dissessem isso. Eu era bem criança, então, e, lá todos estão vivos. O tempo não passou.

Uma lembrança traz sempre outra. Lembrei-me de uma outra tempestade já com meus filhos nascidos e crescidinhos quando ainda morava em minha cidade de origem. Nos quarenta anos em que lá vivi, foi a segunda da qual me recordo pela estridência e intensidade. Mas, tal como numa poesia tão minha conhecida: era a mesma cena e já não era. Agora, era eu e o pai deles que acalmávamos o alvoroço das crianças, garantindo a tranquilidade do sono e também que amanhã tudo voltaria a ser como antes.

Outro dia à noite, enquanto a natureza esbravejava parindo chuva forte, ruidosos trovões e, os relâmpagos iluminavam o céu deixando entrar pela janela a paisagem em flashs, percebi que já não me sinto tão atemorizada com
as tempestades. Mas, na verdade, a natureza em seus arroubos, ainda me amedronta. Sei lá o que ela vai aprontar!.

Nessa última que ocorreu, pude continuar me deliciando com a cerveja geladíssima que acompanhava nossa pizza e nossa conversa sobre o tempo que cada vez é mais voraz, as pessoas e as recordações boas que sobrevivem às suas ausências.

Agora, escrevendo, me dou conta de que amanhã é dia das mães e, acho esquisito, estranho, toda essa falação sobre as tempestades vividas…

Flagro-me sorrindo e sem desistir sigo em frente. As mães, penso, são como tempestades em nossas vidas, Surpreendo-me, mas, sem me dar por vencida, deixou- me levar, devemos ser também assim na vida de nossos filhos. Nem sempre, nem todo dia, graças a Deus.

As tempestades mudam a estação, preparam a terra para o plantio tornando-a úmida e fértil, abastecem os rios e os mares… E, como as tempestade as mães trovejam e relampagueiam, provocam enxurradas, alagamentos, desabamentos, nos deixando sem saber onde pisar, mesmo que se diga que pé de galinha não machuca pinto. Machuca sim. Isso vamos aprendendo vida à fora e, nem sempre conseguimos, como mães, não deixar que isso aconteça.

Porém, como na música cantada por Elis, que tão forte ainda escuto, aprendemos que nada será como antes, amanhã,o que não significa dizer que depois da tempestade não venha a bonança e, se descubra que mãe é mãe e só tem uma. Mãe, como a chuva, é pura natureza e faz nascer ervas daninhas, ipês e borboletas.

O resto são as mal traçadas linhas.

Feliz dia das Mães,

Julita.

Uma opinião para “DEPOIS DA TEMPESTADE…”

  1. zita
    14/05/2014 at 12:39 #

    Lindo!
    Quanta poesia! Adorei o vocabulário, as figuras de linguagem, o lirismo, as reminiscências, enfim, a delicadeza do texto de Julita. Obrigada!