Julita

De Brasília e seus ipês, e de gratidão.

Gosto de observar a natureza. Não somente as estações quando já se apresentam definidas e dentro do seu tempo. Gosto de me antecipar e buscar suas pequenas transformações, a gestação à qual  se dedica entre a finalização de uma e o desabrochar da outra.

Sigo pelos caminhos à procura desses indícios, da sutil mudança que vai acontecendo – o vento que sopra espalhando ou trazendo a chuva, o sol que nasce mais cedo atravessando diagonalmente a sala, e, principalmente ficar atenta às folhinhas verdes que vão se insinuando, atrevidas e ousadas, despontando nos galhos das árvores, bem antes que o homem determine: é primavera!

Aqui em Brasília os ipês florescem, e nos extasiam! Em plena aridez do cerrado, sol a pino, num tapete de folhas secas e retorcidas que aguarda a primeira chuva para verdejar. É uma festa, e como toda festa, efêmera e passageira que acontece em vários atos, pois o ipês se desdobram em cores diversas, obedecendo a uma sincronicidade que só a natureza sabe como fazer. Do amarelo ao branco, os ipês se oferecem para nos maravilhar.

Gosto de ficar à espreita, à espera e me surpreender com a surpreendente exuberância de nossa paisagem, da seca à floração das flores e plantas. De tanto observar já sei onde encontrar aquela árvore de florezinhas roxas, e me pego entrando em algumas ruas apenas para rever o bouganville ou um flanboyant, ou ainda as enigmáticas árvores de copas vermelhas. Não sei seus nomes. Contento-me em olhá-las por puro prazer. Isso me faz mais feliz e melhor,acredito. Se fico mais feliz me sinto mais generosa, menos mesquinha.

Foi assim, olhando as àrvores e suas flores, enquanto esperava o semáforo me dá passagem que avistei, do outro lado da rua, a fachada da Biblioteca Demonstrativa do Livro, e me surpreendi. Desta vez não com a natureza, mas com o que estava impresso logo abaixo, Maria da Conceição Moreira Salles. De imediato sua figura singular se delineou em minhas retinas, seu cabelo curto e louro, sua voz grave e um pouco rouca, sua dedicação e empenho que durante anos foi aprimorando a Biblioteca, tanto física como significativamente, consolidando-a como espaço público de cultura, de estudo e lazer. Mais que merecido seu nome alí, inscrito, impresso, registrado.

O sinal abríu e me deu passagem, mas a emoção foi comigo, uma certa nostalgia que logo se dissipou pois mais forte que isso foi constatar que nós ainda sabemos ser gratos, pela beleza das flores e pela beleza dos atos de uma pessoa,que cuidou e se dedicou em fazer o melhor possível para que outros usufruíssem e crescessem.

Postado em 1º de outubro de 2012

 

 

 

 

 

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