Julita

Conversas aleatórias com Julita

          E Julita, hein!, anda desaparecida, preguiçosa em escrever uma linha qualquer…

          Reclamou que estava tão quente que mal podia pensar e agora reclama que com a chuva e o friozinho só pensa em dormir. E eu aqui sem nenhuma idéia, sem nenhuma lembrança ou pensamento que arrancasse  Julita de sua preguiça e a fizesse escrever. Mas, quem escreve é você, ouço-a resmungar entre um sorriso e um bocejo. Malcriada, lhe retruco, desanimada. Ela se enrola nas almofadas, eu tento desenrolar meus pensamentos

           Criatura ingrata, pensei.

          Ah! deixa pra lá…

          Outro dia ví uma entrevista de Gilberto Gil no programa de Leda Nagle. A entrevista já antiga, de meses atrás quando se preparava para as celebrações de seus 70 anos. Durante todo o tempo, ele, abraçado ao violão, percorria as cordas com seus longos dedos. Nenhuma música em especial, apenas dedilhava, acarinhando as rijas cordas fazendo sons, talvez possíveis acordes, futuramente. Quase uma conversa.

   Essa imagem me acompanhou por vários dias e me nutriu em vários momentos.

       Não sei se exatamente nessa ordem, o que não faz nenhuma diferença, dias depois assistí ao documentário sobre os 100 anos de Rubem Braga. Um amigo seu, do qual agora esquecí o nome, fez uma filmagem dele em sua cobertura em Ipanema. Lá ele cultivava flores e até algumas árvores frutíferas. Andando pra lá e pra cá,  regador nas mãos, aguava suas plantas, e, como se isso não fosse suficiente, passava seus dedos, suas mãos, alisando suas folhas.

    De tudo que se falou sobre Rubem Braga no documentário, e que não foi pouco, foi isso, essa imagem que me capturou. Durante anos ele se dedicara àquele jardim, ou, como brincavam seus amigos, seu sítio em frente ao mar, no bairro de Ipanema/Rio de Janeiro.

     Tal como Gil com seu violão, ele as acarinhava e silenciosamente conversava com elas.

    Também essa imagem continuamente se fazia presente em meus pensamentos várias vezes, e, sempre, me era possível sentir a mesma intimidade, o mesmo encantamento de cada um com o objeto que lhe dava, de graça, um apascentamento, uma iluminação. Sem estardalhaços, sem palavras. Apenas amorosidade e completude, momentos de puro deleite, quando não precisamos de grandes explicações e nem de buscar sentido, mas apenas vivê-los.

    Talvez agora quando Julita acordar eu possa lhe dizer que comprendo sua preguiça e seu sono. Era algo em gestação que carecia de um tempo enrolado nas almofadas para ser escrito.

Uma opinião para “Conversas aleatórias com Julita”

  1. Cléa Sá
    clea
    07/02/2013 at 21:58 #

    Julita, que bom que você acordou. Sempre aguardo suas crônicas. Ela me alegram e me fazem pensar. Cléa.