Julita

Um quarto de tempo

Estava atrasada. Muita atrasada, aliás. Só lhe restava 15″. Apressadamente ía rumo ao encontro marcado. Iria mesmo assim, decidiu, mesmo que só lhe restasse um quarto de hora. Paradoxalmente diminuíu o rítmo, respirou pausadamente.

Então era isso que teimava em se insinuar em sua mente, e que ela teimava em não reconhecer, e se atrasava. E não conseguía chegar a tempo. Perdia a hora do filme, da consulta, do sono do encontro. Como se determinada a se desencontrar com ela mesma. E, sôfrega, apressada, insone, atrasada, não precisaria pensar sobre o quarto de hora restante…

Estava quase chegando. Só mais uma quadra. O dia estava lindo, constatou se distraíndo com as pessoas que seguíam seus caminhos. Será que elas também tinham pressa?

Pressa de chegar, pressa de voltar. Pressa de viver e de morrer, lhe ocorreu pensar.

O sinal verde lhe ordenava seguir em frente. Obedeceu. Dobrou à esquerda, à direita, e, finalmente, era só estacionar o carro e entrar.

 Olhou o relógio e confirmou o tempo: só um quarto de hora. Exatamente. Sem mais sofreguidão, relaxada e atenta, finalmente se permitíu aceitar, era mesmo isso: só um quarto de hora de tempo era o que ainda lhe restava de anos de vida, provavelmente.

Faria por merecê-los.

Agora, em frente à porta sentíu irromper uma forte alegria, um profundo bem-estar.

Este quarto de tempo era só seu, fizera por conquistá-lo…

Envolvida por um misto de certeza e contentamento, tocou a campainha.

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