Julita

Assuntos aleatórios de Julita.

Os assuntos sobre violência pululam nos jornais da TV, nos noticiários, nas revistas, nos filmes, nas redes sociais. Diante de nossos olhos. Ao nosso redor, assaltos e sequestros acontecidos com pessoas próximas de nós. Não mais notícias, mas dura realidade que nos faz pensar duas vezes se vale à pena sair de casa, principalmente à noite. Andar livremente pelas entrequadras já nos parece algo distante, uma lembrança dos bons tempos.

Violência social, violência doméstica, protestos, manifestações pacíficas que acabam em morte.

Violência contra a mulher. A violência da natureza em resposta ao descaso em relação a ela.

Etc. etc… etc…

Em meio a tudo isso e tantas outras coisas que me preocupam pessoalmente, decido ir à exposição da japonesa Yayoi Kusama. Percorro as salas destinadas as suas obras-pinturas, esculturas, instalações. Na saída, leve e até alegre me deparo com essas questões tão velhas como o mundo: o que é a arte? Qual sua função? Pra que serve? O que se compra quando se compra (quando se pode) uma obra de arte? Qual seu preço se nos é tão cara?

Meus pensamentos pululavam agora de encantamento: pela história forte da artista; pelas bolinhas infindavelmente repetidas, luminosas, quase saltitantes, revestindo objetos de uso, comuns, em expressivos instrumentos de comunicação; espaços indefinidos, espelhos multiplicando ad infinitum minha imagem. E, não somente, mas, como que convocando em cada um, o ser pensante – o que somos, onde estamos, o que fazemos por aqui? Eu sou aquela imagem que vejo de mim? Mas, qual delas, se me vejo em tantos ângulos? Sou aquela que dá às costas aos assuntos graves de que falei no início? Ou, essa, na qual me surpreendo maravilhada e curiosa, tal qual uma criança, diante de um brinquedo novo?

Deslumbrada, alegre, e, diria mesmo feliz, querendo colar as bolinhas adesivas que me entregaram à entrada da última sala que percorri. Muitas pessoas estavam lá dentro. Umas sozinhas, outras em grupos. Algumas com a fisionomia grave, séria, de quem cumpriam uma tarefa. Outras sorridentes. Todas participavam, algumas se fotografavam ou fotografavam a exposição. Assim que entrei fiquei parada, com a cartela de bolinhas coloridas na mão, pensando no significado daquilo. Demorou pouco esse pensamento e me vi colando as bolinhas, procurando um lugarzinho que fosse e colando por cima de outras muitas e muitas colagens já existentes, resultado de outras colagens feitas por outras muitas e muitas pessoas – crianças, adolescentes, jovens e pessoas maduras como eu.

De imediato lembrei-me das redes infinitas de que fala Yayoi, infinitas e invisíveis, em busca de um espaço, de uma luzinha, de uma possibilidade de saída senão para a felicidade, pelo menos para um pedacinho, um naco, um rasgo de encantamento. Como já disse, sai sorridente, alegre, esquecida da violência que às vezes se mascara de docilidade e concordância.

Chovia. Chovia muito e como havia deixado no carro a minha sombrinha, sentei-me à espera que a chuva estiasse um pouco, e, fui pega de surpresa por Julita que sucumbira também aos assuntos sérios das greves, das manifestações e da violência que precisam sim de soluções, mas que não podemos nos deixar soterrar por eles. A chuva continuava caindo e parecia complementar, festejar as instalações da artista. Uma cortina d’água descia do céu escuro e fechado em pingos brilhantes, iluminados pela luz elétrica, e corriam serelepes pelo chão.

Pensei, sem dúvida é preciso pensar, encontrar soluções para os graves problemas do nosso tempo, contudo não podemos desprezar os efeitos da arte, das pinceladas de tintas, de transformar barro em escultura, ou o ronco de um motor emperrado do barco numa música que hoje corre o mundo;

Dia de luz
Festa de sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar…

JULITA.

Uma opinião para “Assuntos aleatórios de Julita.”

  1. Regina Motta
    Regina Motta
    10/05/2014 at 10:08 #

    Julita, você pergunta ‘o que é arte?” É o que você acaba de nos oferecer com esta belíssima crônica. “Arte é dar Prazer”, não importa qual linguagem usamos. A leitura do seu texto é puro prazer,em dia de sol, em dia de chuva.
    Obrigada!
    Regina